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A CANDIDATURA

Segunda-feira, 10.10.11

 

 

Três dias depois, deu por concluída a exposição detalhada em vários capítulos, escrupulosamente transcritos a dois espaços e em times new roman, conforme as instruções, e rematados por uma folha de excel onde se perfilavam no sentido vertical e descendente os números detalhados item a item do requerido orçamento, anexo. Verificou a correcção da ortografia -ainda discordante- palavra por palavra, releu cada parágrafo certificando-se que cada frase soava de modo escorreito e eficaz.

Agrupou os dez curriculuns indispensáveis, mais as declarações exigidas e o formulário preenchido. Juntou tudo num ficheiro zip. Passou o ficheiro zip para a pen, pegou na mala e no guarda-chuva e saíu à rua dirigindo-se à loja de fotocópias mais próxima, a 100 metros de casa, aproximadamente. Fez imprimir as folhas, verificou a qualidade de  impressão, alinhou-as sequencialmente, pediu que encadernassem com cartolina preta na contraface,  mica transparente na face. Pagou. Dirigiu-se ao Instituto, contente por ter logrado terminar com margem confortável em termos horários, embora fosse o último dia do prazo indicado para entrega do projecto. Infelizmente, a informação sobre a concessão de subsídio estava tão discretamente mencionada no site oficial da instituição, que apenas deu por ela três dias antes do prazo para apresentação de candidaturas terminar. Eram 15H00 e os serviços do Instituto encerravam às 17H00. Franqueou a porta de entrada e perguntou ao segurança se era ali que deveria entregar o projecto. O segurança,  muito sorridente e amável, teve dúvidas, ligou para a extensão do departamento apropriado, pedindo confirmação. O segurança
informou-a que deveria dirigir-se ao outro edifício, dois quarteirões abaixo, pois aí é que era o local indicado para a entrega dos papéis. Agradeceu sorrindo de volta, e encaminhou-se para o edifício sito dois quarteirões abaixo. À entrada, explicou à recepcionista e ao segurança ao que vinha,  pediram-lhe uma identificação, tomaram nota do seu nome e indicaram que deveria subir o lance de escada imediatamente à direita até ao primeiro andar, e aguardar que chamassem pelo seu nome. Nessa altura, deveria apanhar o elevador para o segundo andar, onde seria recebida pela funcionária encarregue de receber as candidaturas. Assim fez. Resolveu esperar de pé, pois estava em crer, uma vez que não estava lá mais ninguém, que pouco demoraria até ser chamada. Dez minutos depois, resolveu sentar-se num dos sofás de veludo rubro. Folheou distraidamente algumas revistas, verificou se tinha mensagens no telemóvel. Aproveitou para mandar um sms ao namorado. Leu o sms de resposta do namorado. Aproveitou para fazer uma chamada. Recebeu uma chamada. Ao fim de vinte minutos perguntou ao segurança se estava tudo bem. O segurança ligou para a extensão do respectivo departamento e pelos jeitos da conversa, percebeu que se tinham esquecido de si. Pressurosamente, o segurança encaminhou-a até ao elevador. Foi recebida no hall de entrada por uma senhora extremamente simpática, diante de outras pessoas com pinta de importantes, que aguardavam não se sabe bem o quê. A senhora simpática folheou o projecto, perguntou se tinha o orçamento. Apontou-lho. A senhora simpática achou bem. Depois, a senhora simpática, perguntou-lhe se sabia qual o seu número de associada. Ela não tinha. Não era associada. A senhora simpática olhou-a com comiseração e disse-lhe muito amigavelmente que apenas associados da instituição poderiam candidatar-se.  Não se lembrava de ter visto essa indicação, mas a senhora era tão simpática e teve tanto medo de borrar a pintura, que nem insistiu. A senhora simpática sugeriu que se tornasse associada. Mas, entretanto, o serviço onde se tratava dos processos de adesão já estava encerrado. Só na segunda-feira, uma vez que era sexta. Mas o prazo de entrega das candidaturas termina hoje… balbuciou. A senhora simpática, ficou mais simpática ainda e retorquiu, mas pode voltar a candidatar-se em Janeiro. Em Julho já se sabem os resultados. Estamos em Outubro, comentou. Muito obrigada.

Já na rua, em aturdido monólogo interior em que se descompunha pelo zelo colocado na elaboração do projecto tendo-lhe escapado o detalhe que o pôs em águas de bacalhau,  foi atravessada de orelha a orelha por um dardo, que era o som de um apito incrivelmente estrídulo e cada vez mais próximo. Assarapantada, pois nem o local, nem qualquer circunstância minimamente se adequavam a tal desaforo, acabou por vislumbrar a figura produtora do barulho, que percorria o passeio em sentido contrário ao seu. A ninguém passava despercebido, todos relanceavam e não poucos ficavam boquiabertos e especados. Era uma verdadeira aparição extraída de uma dimensão paralela. Não fora a expressão dos demais transeuntes e convencer-se-ia de estar a ter a visão do espectro de um marinheiro enlouquecido, cuja alma danada tivesse sido condenada a deambular em terra por toda a eternidade. O homem, sujo, pele tisnada e cabelo hirsuto calçava uma botas da tropa sem atacadores e usava uns calções até ao joelho. Brandia um pau e segurava um apito entre os lábios que soprava sem cessar, como árbitro louco num jogo digno de integrar o enredo de Alice no País das Maravilhas, enquanto descia a rua na direcção de coisa nenhuma.


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publicado por Champagne e Miniaturas às 23:43

A CAIXA (cont.)

Terça-feira, 06.09.11

Esta tarde no café, pedi à miúda uma queijada de amêndoa e um sumol de laranja. À segunda confirmação, esta estendeu a pinça dos bolos para o tabuleiro das queijadas. Virou a queijada que seleccionou para verificar no verso do embrulho se era de amêndoa, e serviu-ma num pires, juntamente com o refrigerante. Quando a trinquei, era de ananás. Menina, desculpe, mas pedi de amêndoa. Esta é de ananás. Ah! Mas estava no sítio das de amêndoa! ...Mas é de ananás, repliquei. Não gosta? Nem por isso, tá a ver, sumol de laranja, nem sequer é de ananás, prefiro amêndoa. Foi revirar todas as queijadas, enquanto se explicava: sabe, elas têm escrito aqui atrás do que são, e essa está mesmo no sítio das de amêndoa. Rematou com a pinça entreaberta e suspensa dos dedos em ângulo obtuso: afinal, já não temos de amêndoa. Puseram as de ananás no sítio das de amêndoa, porque já se acabaram as de amêndoa.

 

Manuel ficou suspenso na pontuação impressa no rosto da rapariga: um ponto de interrogação em cada olho, um ponto de exclamação no lugar do nariz, e a boca, toda ela reticente, que ao todo só queria dizer que-quer-que-faça? Apatia, confusão e enfado. Pensou que o pior de tudo é não haver como pensar. Está escrito na parte de trás do embrulho, “Amêndoa” ou “Ananás”. A de amêndoa e A de ananás. A coincidência e o imprevisto é que comprometeram o método! Tivesse ele o software necessário para descodificar como é possível não apanhar uma palavra inteira ao primeiro vislumbre.
Antes da queijada, ao sentar-se, a mesa estava repleta de louça usada pelo cliente anterior. A rapariga apareceu com uma bandeja, manifestamente pequena demais para o volume de louça. Avaliou, deu meia-volta e foi buscar uma bandeja maior. Logo aí, Manuel tinha pensado mas por que carga de água não toma nota do pedido, leva alguma louça, depois traz o que pedir, e leva o resto?!

Vem para a rua a pensar que com metade dos empregados melhor pagos e com maior qualificação, o dono do café concerteza facturava mais. A queijada de ananás que acabou por se sujeitar a comer, soube-lhe a amêndoa amarga.

 

Quando era puto, uma vez aconteceu-lhe uma situação hilariante com a mãe de uma das primeiras namoraditas. Foram todos três lanchar na Mexicana. A mãe, de uma possidonice antológica, tentava parecer o que era óbvio para toda a gente que não era e, quanto mais se esmerava mais se afastava do objectivo, produzindo um ror de situações basculantes entre comicidade e constrangimento. Ao empregado mais carismático da Mexicana naquele tempo, a miudagem do eixo Filipa de Lencastre-Instituto Superior Técnico chamava Chouriço de Sangue, devido ao escanzelado e vermelhusco pescoço que lhe saía impertigadamente do casaco branco da farda. Vem o Chouriço de Sangue de bloco e caneta em punho e irrepreensivelmente pergunta, dirigindo-se em primeiro lugar à decana da mesa: Vossa Excelência deseja? Um “palmiére” e um capilé. Simples, ou coberto? Como é que é isso, coberto? Minha senhora, é com ovo e açúcar batidos.  Ai credo, não gosto de capilé assim! Teve que bater em retirada para a casa de banho, onde se desmanchou a rir,  e permaneceu durante largos minutos a reconstituir compostura. Pescoço caricatural, ou não, ia-se a um café e era-se atendido como deve ser, essa é que é essa.

 

Se o Eça cá viesse, esgotava a palavra choldra em menos de um ai, aliás, o mais certo era faltarem-lhe palavras por excesso de assunto. Mete muito respeito verificar que  Eça, Camilo e Almada comentaram e descreveram tipos sócio-culturais com correspondências assertivas à actualidade. Visto assim retrospectivamente, dá gerações a produzirem gerações de clones sem vontade, sem ânimo e sem fulgor. Mas medo, muito medo, para dar e vender. Logo haveríamos de ter fartura de uma coisa que não serve senão para atrofiar, nem dá para exportar nem nada metido em garrafinhas com rolha de cortiça, pelo menos enquanto a UE não lhe der na vineta chumbar as rolhas de cortiça, como os galheteiros e a tripa dos chouriços. Imagine-se estes senhores da Europa que trabalham nos departamentos onde legislam sobre galheteiros,  a enfardar chouriços e a agoniarem-se todos com a tripa. Um caso sério!

 

Apesar do torpor que começa a tomar conta de si, Manuel procura no google D. Carlos I. Depois, monarquia em Portugal. Depois, República em Portugal. De repente, encontra a caixa, toda ela resplendor, tal qual uma aparição. Fremente, como se fosse Natal e desembrulhasse o presente mais desejado, retira-lhe a tampa com vagares de amante libertino. Começa a extraír do seu interior as imagens extraviadas, relendo os textos escritos com pês e agás em sítios onde há já muito foram extintos. A língua vai-se estreitando, simplifica-se cada vez mais, como se ao pensamento cada vez bastasse menos. Agrada-lhe o requinte da complexidade caligraphica, do mesmo modo que certos luxos o confortam, como comer peixe com a faca e o garfo do peixe, usar guardanapos de tecido, ver uma mesa bem posta com os copos alinhados como deve ser. É numa dessas mesas que afinal está sentado, um tanto aturdido com a profusão de iguarias e vinhos. Sempre que tenta por comida no prato, contudo, ela paira e flutua acabando por se dissolver no ar.  À roda da mesa estão as flausinas da sua infância, todas de fato de banho, em grande algazarra de gritinhos e risos. Fazem tchin-tchin e tilintam os copos, mas falha rotundamente a tentativa de lhes saltar para o colo. Falta-lhe peso, flutua como um balão indirigível, erra a pontaria portanto, e mesmo quando se ajusta, não encaixa. Num canto, um televisor vintage exibe a mira técnica da RTP, afinal, nada menos que um puzzle à picasso das caras do Marcelo Caetano e do Salazar, com uma orelha do Cavaco, salvo erro. Os recortes animados saem por si mesmos do interior da caixa da avó ao centro da mesa como uma terrina de papelão, pairam no ar como se não houvesse gravidade, como se estivessem na superfície da Lua. Ele mesmo começa a sentir-se cada vez mais inefável, a mão que estende move-se em câmara lenta, e, com ela, tenta abocanhar cada recorte como um cão de guarda que agrupa ovelhas para as recolher ao interior da caixa aparecida. Debalde. Os recortes ganham vontade própria, ou impele-os outra vontade. Desmultiplicados aos milhares volteiam no ar como papagaios sem fio e o salão parece-se cada vez mais com uma cena em tons de sépia no refeitório da escola do Harry Potter. Eis senão quando, aparece uma imensa bandeja voadora, que a princípio lembra um ovni. No centro da bandeja está a miúda do café, toda nua, claro e com A tatuado na testa, a matar com o piercing encravado no umbigo. Cheia de medo de cair, enclavinha as mãos nos bordos da bandeja e derrama sobre a mesa uma miríade de queijadas de amêndoa, a que Manuel se lança predatoriamente, devorando sem mastigar todas as que a boca consegue comportar.

 

No melhor da festa soa uma voz em off: Sua Majestade, El-Rei de Portugal!

Entra uma charrete e lá dentro, Dom Carlos I de Portugal, acena-lhe majestaticamente, empunhando um recorte adejante. A turba dos comensais divide-se entre aclamações e apupos, as flausinas dão mais gritinhos ainda, a miúda da bandeja faz loops em jeito de parada aérea. Instala-se a confusão, os cavalos empertigam-se e Dom Carlos toma conta das rédeas por suas próprias mãos, para comoção da assistência. Foi atingido por uma queijada de ananás, vinda não se sabe bem de onde.

FIM
 

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publicado por Champagne e Miniaturas às 22:36

A CAIXA (cont.)

Sábado, 03.09.11

À noite é mais fácil viver. Do despertar tardio até ao jantar amanhado por si ou no sofrível restaurante à porta de casa, onde fazem fiado, o ânimo aumenta por razões inexplicáveis mantendo-se estacionário, quer dizer, bom, até altas horas da madrugada, altura em que se rende à evidência do sono, menos por o sentir, do que pela compulsão de cumprir uma sequência de acções normais no dia de uma pessoa comum. Apesar de quase sempre dormir uma involuntária soneca no sofá da sala, adia o mais possível o momento de ir para a cama, só para prolongar a estada na disposição menos má, que, na verdade, é bem capaz de ser nada menos, nada mais, que o resultado do efeito dos vários comprimidos tomados desde manhã, adubados com uma racionada dose de jameson. Ou quem sabe, uma gratidão instintiva, e com hábitos noctívagos, por ter vivido mais um dia.

Desde a falência da pequena empresa de publicidade que detinha, a sua vida tem dependido de uma sucessão de medidas recursivas e expedientes. Vender o andar maior para comprar um mais pequeno, pedir um pequeno empréstimo ao banco por conta do andar pequeno, pagar umas dívidas às finanças, outras a antigos fornecedores, investir algum num carro de qualidade sofrível. Vender o carro e comprar um chaço em segunda mão, pagar a prestação do pequeno empréstimo ao banco, pagar as contas, e comer.

 

E quem ficou com a minha caixa, afinal? Ou será que pura e simplesmente lhe deram sumiço, jogaram-na no latão do lixo da primeira esquina, sem delongas? Como fui consentir ser despojado desta maneira?


 

Ir para outro lugar é uma opção. Tantos de nós já o fizeram. Vêem-se em palpos de aranha para se desençarilharem das peias que se levantam sempre em torno de um qualquer visionário, regra geral assenta o aforismo “depois do burro morto, cevada ao rabo”, e muitos optam pela abalada. A Maria João Pires, o José Saramago, a Paula Rego, o Júlio Pomar são do melhorzinho que há por exemplo de como neste país os nossos melhores, podendo, põem-se a andar daqui para fora a sete pés. Um país que não protege nem fomenta a cultura, não cultua o seus criadores, é um país menor, não por ser pequeno, mas por recusar crescer.

Manuel divaga pelos incipientes planos de se instalar, ora no Maputo, ora em Los Angeles, e acende o trigésimo cigarro, renovando pela enésima vez a intenção de reduzir no tabaco, isto assim não se aguenta, já custam mais de quatro euros! Claro que em casa fuma à ganância, não se pode fumar em sítio nenhum, quer dizer, ele faz questão de só ir a cafés, restaurantes e bares onde haja espaço para fumadores. O problema é que os lugares para fumadores estão sempre à cunha, para gáudio da tabaqueira. Se for para Los Angeles, o melhor é deixar-me disto de vez, a histeria anti-tabágica é repositório de todos os mal resolvidos chauvinismos norte-americanos. África é outra conversa, têm mais com que se ralar do que com os malefícios do tabaco para os fumadores activos e passivos.

 

Angola é um país florescente, com uma economia em ascensão, quer dizer, há lá gente podre de rica por contraste com os que apodrecem nos confins dos bairros de lata. Deve fazer muita diferença a quem vive à míngua dever a miséria a brancos ou pretos. No fim das contas, é sempre a vã glória de mandar e a cobiça. Lembra-se da vez em que a antepenúltima namorada comentou ter presenciado no cabeleireiro a esposa de um funcionário do governo angolano a gastar mais de mil euros em extensões capilares, para fazer surpresa ao marido no dia dos namorados. Faltou saber se ia em voo normal, ou especialmente fretado para a ocasião. Soubesse o povo angolano a quanto monta a queca de um alto funcionário do estado! Ouviu algures que só em Luanda há quatro mil orfãos a viverem na rua e viu na TV um missionário estrangeiro a levar a peito a sua salvação, juntamente com uma mãe angolana de cinco filhos, que acolhia miúdos da rua. Revê a extrema dignidade com que essa mãe efabulava, num português sem ornamentos, mas escorreito. Até se comoveu a óbvia evolução interior da mulher. Parece que os dirigentes de Angola retiveram o pior da escola colonialista, implementando um grande upgrade na corrupção, e na ganância com que agora abicham empresas portuguesas. Florescente, mas truculenta economia, não foram poucos os que recentemente foram de peito feito e voltaram depenados, quando o corrupto funcionário que os protegeu no empreendimento extrapolou as contrapartidas, ou lhes aplicou o golpe.  Moçambique é menos feroz a nível da corrupção, mas a morosidade dos trâmites acaba por ser dissuassora, quando não impeditiva. Mesmo assim, notam-se movimentações na direcção desses países, encabeçadas pelos que lá nasceram ou cresceram, cuja ligação afectiva e visceral jamais se quebrou.

 

Projectos de diáspora que conciliam antípodas, tal a vontade de se por ao fresco. A fuga para a frente é o último recurso daqueles a quem o mundo foge no seu lugar. Aqui parece que nos caíu um manto pardo em cima da cabeça. Andamos como almas penadas num limbo, parece que morremos e ainda não nos disseram. Ou será o contrário, passam a vida a dizer-nos de variadas maneiras que já morremos, e andamos todos de luto interior por hábito? Rai’s partam, ficámos todos danados quando o Iggy Pop disse que não gostava de Portugal porque as portuguesas andavam todas vestidas de preto… mas foi costume, hoje em dia é que só andamos de preto pelo nosso avesso. Será que o Almada tinha razão quando afirmou que a missão da república portuguesa já estava cumprida antes do 5 de Outubro: mostrar a decadência da raça? Mas, lá está, dar rodas de decadente à raça implica que já fomos o contrário de decadentes, quer dizer, progressivos. Fomos. Portanto, até o nosso Almada nos colocou viradinhos para o passado, como um miúdo de castigo na sala de aula, mas dá que pensar quanto do ultimatum futurista às gerações portuguesas do século XX se poderia reaplicar, com a adição apenas de um I.

(...)


 

 

 

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publicado por Champagne e Miniaturas às 22:42

A CAIXA (cont.)

Sexta-feira, 02.09.11

Mas afinal, que é feito da caixa da avó...? Manuel dá tratos à cabeça, tentando reconstituir o destino da caixa após a morte da avó, vai para vinte anos. Caramba, tarda nada, estou à beira de me transformar na personagem do Süskind que viu a vida de pantanas por causa de uma cagadela de pombo! Que se lixe a caixa! Olha de soslaio o volumezinho de correspondência alinhada sobre a secretária, no meio de um caos de coisas desirmanadas que vão do rato do Mac, até ao caroço da maçã que roeu ao levantar, a título de pequeno-almoço. Dispõe-se a analisar o conteúdo, consabidamente contas. Olha, boa, aviso de corte da electricidade. Quantos dias tenho para desencantar cento de dois euros e noventa e cinco cêntimos?... Pois, a ver vamos... Quando não é a luz, é o gás, quando não é o gás é a internet. Mas sem luz, também não há internet, nem água quente. Porra, dilema do caraças!

 

 

No tempo de el-rei Dom Carlos, Portugal estava na banca-rota. Esta frase sucede-lhe como se lhe tivesse sido vertida clandestinamente através de um orifício qualquer não rastreado. El-Rei, por que carga d'água?! De onde lhe vem agora este léxico? Republicano por inerência, ele há coisas que nem vale a pena perder tempo com elas, isto é uma república há cem anos. A cabeça de Manuel turva-se com a poalha acumulada de meio século de reconhecimentos avulsos de história recente, entre os quais sobressaiem o salazarismo e o 25 de Abril. Sucederam-lhe os dois, o primeiro passou-lhe ao lado, o segundo acertou-lhe em cheio, púbere, retendo a vaga ideia de que antes algo tóxico empestava permanentemente o ar. Lembra a mãe a precipitar-se para a janelas da sala em pleno Verão, sibilando um alarmado "fala mais baixo, olha que se ouve lá fora!", enquanto o pai argumentava em solilóquio para o chefe do estado, a praticar conversas em família a preto e branco no ecrã do televisor. Mais a mais, nunca chegou a distinguir ao certo quais das conversas eram sobre sexo, ou coisas relacionadas com frases escritas nas paredes, à trincha e à pressa. Sempre que a mãe cortava a palavra ao pai “cuidado com o miúdo!” ficava a meio caminho entre achar-se poderoso o bastante para ser temido se ouvisse certas e determinadas conversas, e indignado pelo sonegar sistemático das chaves dos segredos. Com cinco anos, caminhava pela rua pela mão da mãe quando, ávido de exibir a precocidade, juntou sincopadamente, mas alto e bom som, as letras escritas numa parede: "LI-BER-TEM-A-LEX!". A mãe aplicou-lhe o método do rápido apertão no metatarso e, entredentes, atingiu-o com a mais recorrente das palavras da sua infância, "cala-te!". A frase não lhe saiu da cabeça durante semanas e, a bem dizer, ficou para sempre, apesar de após o 25 de Abril ter finalmente resolvido o enigma. Também ficou para depois a revelação da intrigante palidez do pai ao chegar a casa num dia em que fez qualquer coisa desacostumada, acalentado pelos murmúrios tranquilizadores da mãe "mas como queres que saibam?!". O pai tinha votado Humberto Delgado e vinha cheio de medo que descobrissem, coitado. Escapa-se à polícia, mas não se passa incólume ao medo. Resolvido também o mistério do sorriso indisfarçado do senhor da mesa ao lado, a responder tonitruantemente "já, já!", no restaurante onde almoçavam em Sesimbra, quando, estranhando a bandeira a meia-haste no quartel em frente, o pai comentou para a mãe à boca -muito- pequena "não me digas que já morreu?"

 

Salazar era o nome do raspador de borracha que deixava rastos de coisa doce no fundo da tigela de bater os bolos, e fazia-lhe muita espécie a cara de caso com que as mulheres da casa o diziam, e pior, quando ele referia o objecto pelo mesmo nome, a mãe ralhava a rir "chiuuu, isso não se diz!"
O mundo dos adultos era uma floresta de enganos cheia de carreiros que iam a lugar nenhum.

 

Manuel recosta a nuca no sofá e mira o tecto, como se procurasse ver nele um mapa. Vê melhor se fechar os olhos, volta atrás mais facilmente, mas não vislumbra com clareza para além do ponto em que deixou de ser alguém inteiro, para ser facultativamente desempregado, ou freelance. O ponto onde tudo começou não é maior nem mais significante que uma cagadela de pombo, mas desde então, parece que todos os pombos de Lisboa determinaram que haveriam de lhe cagar em cima. E quem ficou com a minha caixa, afinal? Parece que parte substancial da sua história anda ausente em parte incerta, como os recortes dos últimos suspiros da monarquia, que haveria de ter herdado.

 

 

Dá a impressão que muitos de nós temos um piquinho a azedo em relação à monarquia, pelo menos por este penúltimo rei, martirizado mais por inércia e incompetência que pelo mal-enjorcado atentado-suicida. Bem conhecia os riscos e vai por-se a andar de charrete, e o canalha do João Franco que não providenciou escolta policial de jeito! Este inconfesso e inusitado enlevo por Dom Carlos, é coisa para derivar do mesmo sítio de onde nos sobreveio o sebastianismo, esse depósito de esperança nostálgica e rançosa em alguém que venha por cobro a todos os imbróglios. O anseio português mais depressa olha para trás, que enfoca no porvir. Falta de líderes, diz-se. É impressão minha, ou temos tido líderes em barda?! Ou serão antes capatazes, a famosa especialidade da casa? O que nos faz falta é mirar o exemplo, mas os melhores promovem-se mal, têm pouco mediatismo... Escusávamos de estar sempre desertinhos de ter quem nos diga o que é bom para a tosse, de nos pormos a jeito de qualquer ungido com um olho só, unhas e dinheiro para a guitarra, predisposto a cumprir mal e porcamente o papel de sempiterno salvador da pátria, sobre cuja cabeça se erga a aura do Pastor, e, por contraponto, sirva às mil maravilhas para se lhe destilar em cima uma caterva de recriminações, infelizmente, quase sempre mais que justas, o que não quer dizer que a relação não esteja logo inquinada à partida pelo vício de delegar o afadistado destino nas mãos de outrém, recoberto com a arte de limpar a água do capote. Posto isto, é a contínua logomaquia entre "eles" e "nós". Há qualquer coisa de perverso nesta eterna cisma com “eles”. “Eles”, são os que mandam. A culpa é sempre toda “deles”. Como se eles fossem selenitas, ou invulneráveis por artes de berliques e berloques.  Afinal de contas, não é preciso ser grande, para pensar grande coisa.

(...)

 

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publicado por Champagne e Miniaturas às 23:26

A CAIXA (cont.)

Quinta-feira, 01.09.11

Com o fado ainda a ressoar-lhe na cabeça, revisita a apresentação de um CD de nóvel fadista a que foi convidado a assistir, ao fim da tarde, no Martinho da Arcada. O apresentador, o marido da fadista, fez a festa, atirou os foguetes, fez moinhos com as canas, e terá porventura planeado vendê-los... Enfim, irritante tipo o dos maridos que tomam conta das carreiras artísticas das esposas. Todos se parecem, não pelos traços fisionómicos, bem entendido, mas pelo exercício de uma fórmula funcional que lhes assenta como uma gosma, conferindo-lhes uma dinâmica postural comum. Deixam-nos a braços com a intrigada reflexão sobre o que terão visto neles as artistas, para assim colocarem nas mãos e no resto deles, tudo o que lhes respeita a elas. Anunciam a produção delas como "nossa", têm sempre um olho no burro, outro no cigano, como quem não quer a coisa, ou seja, ao mesmo tempo que trauteiam a canção que elas cantam, batem palmas a compasso e ritmos com o pé no chão, relanceiam para a expressão dos circunstantes, perscrutando entre a assistência a cara daqueles a quem interessa cair nas boas graças, exalando sorridente formato de intimidação sobre a geral, que se vê em palpos de aranha para atinar com a reacção almejada. Imbuídos de fanatismo derriçado, comprometem a credibilidade das mulheres com os ademanes, o ar de donas de casa de antanho recebendo os convidados em representação da cara-metade, em resumo, uma peganhenta mistura de atamancados business men com pavoneados anfitriões da festa.

Festa, produto de mais uma fórmula nacionalizada: de maneiras que fizemos assim-assim, desculpem qualquer coisinha, muito obrigadinhos por terem vindo, não levem a mal, alem de grávida, a cantora está afónica... risinhos... espero que gostem. Isto tudo dito numa mescla de tonalidades canhestras de quem se revê impante dono da última coca-cola no deserto, mas não quer dizer. Os esposos partilham com os presentes algum episódio da vida doméstica, rematado por um amigo convocado para a contracena. Conversa de quintal, que é preciso aconchegar com sorrisos, de tal modo constrange o eventual desamparo de quem com tamanha candura se permite fazer tais figuras. Algo engenhado em formato de tertúlia, que se deixou comprometer pelos entrefolhos da combinação a assomar por debaixo da saia. Tudo colado com cuspo, como o painel de fotos com que decidiram cobrir um dos espelhos, que a meio da cantoria achou por bem precipitar-se por ele abaixo, pondo em alvoroço a mesa dos vips cita na sua dianteira, impelindo os mais remexidos a lançarem-se ao painel de mãos espalmadas, compensando à força de pressão, a falta de aderência. E nem eram maus, os fados, a fadista idem, os músicos tocavam bem e os poemas eram de Pessoa... A rir-se no além como ele riu para dentro, e, se calhar, a pensar no mesmo: Portugal pode ser isto, um belo naco de fado, servido à trouxe-mouxe. Mas come-se!

 

Foi até à cozinha, em estado de sítio desde que a mulher-a-dias deixou de estar pelos ajustes de receber tarde e más horas. Conseguiu desencantar uma faca razoavelmente limpa, que aprimorou com uma rápida esfregadela na esponja igualzinha às scotch-brite, vendida em lote de três por tuta-e-meia na loja dos chineses da esquina. Se bem que as lojas dos chineses já venderam mais barato, às vezes não compensa, chega-se a casa e descobre-se que as pilhas estão descarregadas ou o artigo tem defeito, vai lá tentar-se trocar e é o cabo dos trabalhos, com os chineses a titubearem um português infestado de LL, e a gente a ver-se gregos para se explicar. Pelo andar da carruagem, iríamos bem se aprendessemos chinês, ou melhor dizendo, mandarim, mas faz impressão porque rima com pudim: quatro saquetas dentro de uma caixinha minúscula azul-escura com letras amarelo-canário, exibindo a estampa de um velho de chapéu cónico, repas de bigodes e barbicha branca, a segurar como se de um luxo asiático se tratasse, um pudim flan dentro de um prato. Quando era miúdo pelava-se por ele, acomodado em forminhas, ou em fatias esculpidas, assente sobre uma camada de açúcar caramelizado.

 

Abriu o frigorífico, torcendo o nariz ao cheiro indiciador de que algo se encontra em processo de mutação biológica no seu interior, retirou manteiga fácil de barrar e com menos trinta por cento de gordura, em prol do colesterol, a caixa do fiambre ainda consumível, só um bocadinho a esverdear na terminação, o que se resolve já com a faquinha da manteiga, e fica como novo. Retira do pacote de plástico duas fatias de pão bimbo e produz uma sandes, que acompanha com uma superbock de lata. A caminho do sofá, atende a namorada arreliada com coisas da vida, basicamente, desmandos do ex-marido com respeito aos filhos, coloca os phones, e passa uma bela meia-hora a enchê-la de fofinha, palavras doces e consolo com a boca cheia, enquanto tecla com dois dedos da mão direita, manifestando o gosto nos posts dos amigos faceboquianos, regozijando-se por ambos terem aderido à tarifa stravaganza, mesmo antes de desligar com muitos beijinhos.


Regressa à viagem de ida-e-volta entre os duzentos-e-troca-o-passo canais da box, e a internet. Passa pelos mails e descobre que alguém pode estar à beira de lhe encomendar um trabalho. Alvoroçado, responde imediatamente, apesar do adiantado da hora e de haver fracas hipóteses de o potencial cliente ainda se encontrar a pé. De qualquer maneira, não tenciona levantar-se antes das onze, portanto, caso o cliente seja madrugador, já fica aviado. Vai do outlook para o blog, mas quando lá chega, faz uma pausa para retomar o comando da box à procura de um canal de música que não interfira com a navegação, e é assaltado pela lembrança da caixa. Pena não dar jeito falar da caixa no blog todo dedicado a gadgets, que são a menina dos seus olhos. Só se abrir um blog para falar de coisas como a caixa, mas tem medo de não ter mais assunto relacionável, e que o blog seja um flop.

(...)


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publicado por Champagne e Miniaturas às 22:07

A CAIXA (cont.)

Quarta-feira, 31.08.11

Manuel pressiona o botão do comando da box e corre a eito umas dezenas de canais excedentários, procurando nos títulos dos programas em exibição, aquele que possa ter algum interesse. Afinal, para que precisa um bípede de aceder a duzentos e tal canais, quando acaba por não passar de espectador assíduo de três ou quatro, meia-dúzia, quando muito?! Curioso pendor para nos deixarmos seduzir com ucharias, no caso, para cima de duas centenas de canais de TV, à uma, embrulhados na factura mensal, pois se fizermos a conta a trinta e nove euros a dividir por duzentos-e-tal-canais, é uma pechincha supimpa! Já trinta e nove euros a multiplicar por... quantos milhões?... Toma uma nota mental para tentar buscar na net quantos utentes tem aquela operadora, que é para a conta sair certa. Há-de dar sainete no Facebook.

Com o Facebook passa-se um fenómeno aparentado, é um vai-vem de gente a propor ser adicionado, é um frenesim de adicionar gente, vai na volta, interagimos diariamente com uma dúzia, se tanto, e, no geral, temos notícias regulares de uma centena, mais coisa, menos coisa, que são, na maioria, aqueles com quem nos damos cá fora. Os demais acabam por ser remetidos à categoria de figurantes que enquadram os protagonistas, e tudo junto na página do perfil é uma autêntica caderneta de cromos. Iça o laptop para o colo e resvala pelo mural a observar à velocidade de queda livre quantos amigos mudaram a foto do perfil, os updates do status de cada um, mais quem faz anos, quem mandou presentes para o Farmville, quantas propostas para o Mafia Wars, convites para eventos onde não faz a menor intenção de por os pés, mas diz que sim para fazer jeito, grupos a que foi adicionado à má-fila, mas condescende em permanecer, resmas de páginas para gostar, corações fofos e beijocas, frivolidades, parvoíces, lamechices, exibições cretinas e egocêntricas, verdadeiros case-studies de marketing pessoal, poses de engate, nacos de prosa surpreendentemente bons, ou patéticos, apelos pungentes, notícias de última hora e em primeira mão, causas, coisas para rir, verdadeiros achados, vídeo-clips a metro. O magnífico mural lembra por vezes um rio em cuja superfície circulam os mais variados e díspares objectos com destino a uma foz imaginária, um delta virtual onde se depositem como sedimentos até entupirem sem apelo, provocando uma inundação de proporções bíblicas. Tudo virtualmente, bem entendido.

 

Um rio… Qual banda sonora, liga-se-lhe na cabeça o fado do Camané "...sei de um rio, sei de um rio..." enquanto a memória o transporta para os dias de piquenique no rio Trancão saloio e transbordante de fauna e flora, nos idos de sessenta, quando excursionava com os pais e os amigos destes, incluindo as flausinas que o pegavam ao colo, de fato de banho inteiro e até depois das virilhas. Invoca sapos, ouriços-caxeiro e passarada avulsa adejando em torno de um fluxo de água revolta que galgava pedregulhos, onde era preciso prospectar minúsculos lagos afogados entre pedras e limos para tomar banho acautelado da corrente, e com vigilância atenta à aparição das cobras de água.

 

Arriscando explorar a vegetação das margens inclinadas, descobriu-se um dia uma nascente de água, onde bebeu. A sequência das fotos a preto e branco do acontecimento ainda existe em parte incerta da casa dos pais. Na década de oitenta, o rio Trancão transfigurou-se num rego de água podre e mal-cheirosa, sem rasto da maioria da bicharada, o que o acabrunha por mais que uma razão, sobretudo a sensação fatalista de que o rio da infância é a representação simbólica do curso da sua própria vida.

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publicado por Champagne e Miniaturas às 23:00

A CAIXA

Segunda-feira, 29.08.11

A avó arrecadava recortes da vida e da morte de Dom Carlos e da Rainha Dona Amélia numa caixa de sapatos. Não poucas vezes se amofinou por ver recusada  correspondência à repetida ladaínha de pedidos para que a avó retirasse do seu nicho a caixa, com o seu fantasmático conteúdo. Sempre que o pedido era deferido, dedos como pinças pequeninas, seguindo compenetradamente as instruções de manuseamento da curadora do precioso acervo, com que enlevo e fascínio desdobrava as folhas preservadas pela avó,  nascida em 1904. Mistério maior: teria à data do regicídio quatro anos, seis na implantação da República, alguns dos recortes eram muito anteriores a ambas as datas e documentavam actividades sociais, passeios e caçadas da família real. Quatro e seis anos são idades improváveis para que a avó fosse leitora de jornais e de folhetos de cordel.  Ergo, conclui que os recortes foram preservados pelos bisavós, e a avó conservou-os e estimou-os mais que legado de valor orçamentado.

 

Poética notável e desconcertante constatação do óbvio, que em meio século de existência e a mais de quarenta e cinco de memória da primeira visitação a tal espólio, jamais houvesse cruzado a cronologia de modo a topar a incoerência de atribuir a iniciativa à avó, face ao desfasamento das datas. A história da caixa tem mais que se lhe diga, é mais que mera incursão episódica numa mão-cheia de tarecos de estimação da avó. É uma herança de família, que afinal traz água no bico… Famosa entre meia-dúzia de gatos pingados por transportar material clandestino, pois, vendo bem, grande temeridade à época cultuar um cidadão relíquias da monarquia com tal desvelo, no fim da década de setenta a humilde caixa de cartão ainda se segurava à memória do seu próprio embaraço, sempre resguardada em prateleira discreta do armário embutido na parede, barricada por objectos fora de uso, velada à esquerda pelo altar pintado de azul de Nossa Senhora da Conceição, com uma lamparina de azeite aos pés.   

 

Lembrou-se disto tudo logo que o genérico do telefilme "República" começou a desfilar, segurando ainda o fio da meada que começou a dobar desde que se predispôs a assistir à película, entusiasmado pelo curriculum do realizador. Meia dúzia de cenas decorridas, já se sentia do lado dos depostos, na vez do dos vencedores. Culpa da falta de carisma das personagens republicanas insossamente encarnadas por pálidos actores, por oposição ao maior gabarito e competência daqueles a quem calharam figuras monárquicas? Bah, erros de produção capitosos –credo, na sequência da fuga no eléctrico, como se viu o prédio completamente anacrónico! Opção de exploração de épocas sobrepostas pelo lado surreal, não fora o denunciado convencimento de que a rapidez do plano iria deixar escapar a evidência da construção moderna. Contra o que é costume na produção nacional, repreensível caracterização: o heróico combatente republicano passa meio filme com uma escara no pescoço que mais parece uma cultura de estafilococos. Má direcção de actores? Mau casting?... Será isso, só isso, ou a antipatia que sente pelos heróis e heroínas republicanos é reflexo de subliminar ressentimento para com esta mal-fadada república, que nunca correu bem? Parece-lhe que a representação do lado republicano, mais do que artificial e enfatuada, ressuma uma espécie de presunção de capataz onde se reconhece mestria no exercício do pequeno poder. À portuguesa, como o cozido, a calçada e a tourada. Excessivos, acidentados, dramáticos e albardados.



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publicado por Champagne e Miniaturas às 23:49

José (cont.)

Sábado, 27.08.11

- Vais recambiar-me para o Inferno. Isso existe, afinal?

 

- Não. Para quê?! Os que se portam mal são recambiados para a terra e pronto, mais cedo ou mais tarde, fazem-lhes a folha.

 

- E os inocentes? Os desgraçados que são vítimas da cobiça, como o Abel? Também se portaram mal e por isso, fazem-lhes a folha?!

 

- Não é assim tão simples, José, é complicado, alguns até são voluntários para exemplo, mas se queres que te diga, estou sem paciência para pregar.

 

Jesus envolve os ombros de José com um braço, e confidencia: Escuta, estou exausto. Farto disto. Tenho uma proposta para te fazer. Quer dizer, em verdade, não é bem uma proposta, porque não te vou dar alternativa, lamento, é mais... uma tarefa. 

 

- Mau, tipo purgatório?
         
- Deixa lá isso…

 

- Vamos lá a ver então…

           
- Olha, tens aqui o halo, a túnica e as chaves. Toma-me conta disto por um bocadinho. Estás à vontade.

 

- Mas… espera aí? Então...

 

- Desculpa, não há hipótese. Quero ir lá abaixo outra vez, mas desta não me vou por a jeito. Ninguém me apanha. Tu ficas aqui e determinas consoante o que sempre defendeste. Inventas um deus para os bons, outro para os maus, ressuscitas o Abel, tramas o Caim, fazes a vida negra ao Papa, dás cabo de todas as bíblias, ou reescreve-a, revertes o tempo, desinventas o pecado, salvas todos os mártires, castigas todos os tiranos, o que te der na gana.

 

- Não sei se estou para aí virado!

 

- Tens mais alguma coisa para fazer?

 

- Pelos vistos, não… Mas é surreal… É desadequado, não sei que diga.

 

- Não digas nada. Até já.

 

- Espera! Vais deixar-me assim, a pairar sobre Portugal?

 

- Dentro de minutos, estás em toda a parte, Portugal incluído. Fica bem!

 

- Há aqui qualquer coisa que não bate certo. Acho que é uma cilada. Há bocado, disseste-me que não podias reverter os teus desígnios, lá está, estás a oferecer-me um engodo...

 

- Deixa-te disso. Eu não posso alterar os Meus próprios desígnios -tem algum jeito?- mas tu podes, se quiseres. Mais a mais, se Me vou, já não existo, por isso, estás nas tuas sete quintas, à tripa-forra. Que mais podes querer?

 

- Isso não é bem assim, não dizes que és omnipresente? Tanto faz estares aqui, como noutro lado, então, estás em todas as partes. Grande patranha me estás a pregar.

 

- Não estou. É o que pretendo. Delego-te as minhas competências para toda a tua eternidade.


- Para onde é que vais mesmo? Estás contactável?

 

- Claro. Basta pensares em mim. E vou sem destino, é conforme me apetecer.

- Se eu te chamar, vens?

 

- Logo vejo. Até à vista!

 

- Nem sequer me fazes um briefing? Como tencionas acabar com o conflito israelo-árabe, se é que tencionas...? Com o terrorismo? A fome? Qual é a tua posição quanto à sustentabilidade?

 

- Isso agora é contigo, faz o que entenderes.

 

- Isto é de gritos. Mas agora o mundo vai chamar a deus, José, ou Saramago?!

 

- Só se tu quiseres, mas vai por mim. Deixa estar como está. Deus, Allah, Jeová... Eles não notam a diferença e agora és invísivel...

 

- Estou sem palavras!

 

 

Jesus retirou a túnica e, tal como previsível, não havia nada por baixo. Não se confunda o afirmado com qualquer alusão a falta de roupas íntimas ou intenção despudorada, prefigurando um Cristo com as partes à mostra, com sexo e nádegas sequer, tal seria demais, e certamente uma candidatura bem provisionada à excomunhão da escrevente. Incorpóreo, é o que se pretende transmitir. Enfiou-a à trouxe-mouxe pela cabeça de José, que a compôs com relutância, espalmando as mãos no tecido, entre a função de alisar e o embaraço do desconcerto. Com um gesto redondo e grácil, Jesus transpôs o halo para José, e atirou-lhe as chaves enquanto se afastava a passos largos na direcção do infinito.

           
- Espera um bocadinho, diz-me só uma coisa: sabes quem é que ganha o  Nobel da Literatura este ano?

 

- É o Vargas Llosa, responde Jesus, sem se virar.

 

- Estou para ver...

 

Jesus estaca e vira-se a três quartos:

 

- Vais interferir?

 

- Nada disso, seria pulhice aproveitar-me do cargo para tramar um companheiro de letras!

- Ficam-te bem esses sentimentos. Eu te abençoo, diz Jesus, rematando com o gesto ictus.

 

- A ver se acertaste!

 

- A ver vamos. Adeus.

 

- Para que servem as chaves?

 

- Para nada, é só para o estilo, um símbolo: "as portas do céu", por aí.

 

- Mas as chaves não eram com o São Pedro?

 

- Ele tem as dele, não te rales.

 

 - Jesus, não me deixes aqui sozinho! gritou José

 

 - Vês? Até tu... Não te queixes, homem. É a tua oportunidade.

 

 - Mas por que razão, meu deus?!

 

Jesus virou-se uma última vez para trás, sorriu resplandecente, olhou-o complacente, e estendeu na sua direcção a mão omnipotente.

 

- Eu o disse, José: a cada um, o céu que idealizou.

 

FIM

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publicado por Champagne e Miniaturas às 20:31

José (cont.)

Quinta-feira, 25.08.11

 

- Sendo assim, prossegue José, passemos ao segundo diálogo. Faça favor de tomar tento: escrevi a minha perspectiva convicta sobre o embuste judaico-cristão e a igreja católica apostólica romana, e o seu constrangimento sobre a humanidade. Não retiro uma palavra. Repare, sinceramente nem estou contrariado por estar aqui, mas confesso que estou desapontado. Acho o cenário e o guarda-roupa muito previsíveis.

 

- Aqui entre nós, isso é da responsabilidade da escrevente. O imaginário dela não chega para mais. Em verdade te digo que o enquadramento é indiferente, somos como Nos vêem, porque não Nos parecemos com alguma coisa que exista na dimensão de onde acabas de chegar. Por isso, pouco importa se Me colocou nestas vestimentas e com  este aspecto, a praia onírica que inventou também é irrelevante e até estas palavras são escusadas, pois não precisamos delas e, quando tem mesmo que ser, preferimos manifestar-Nos noutras línguas, como o aramaico ou o sânscrito.

 

- Pronto, já que aqui estou, diga-me: e agora,  o que acontece?

 

- Vamos dar uma volta.

 

Jesus rodeia-o com um braço e José tem a impressão de voarem, o que o remete de imediato para o episódio do Novo Testamento da Tentação de Cristo, mas ao contrário. Dá-lhe a impressão que pode dar-se o caso de estar prestes a ser tentado a ter fé nas suas próprias palavras. O turbilhão de luzes que se segue parece efeito da toma de um alucinogénio e lembra-lhe passagens do "2001 Odisseia no Espaço", banda sonora incluída. Segura-se com unhas e dentes à túnica do Cristo, estranhando que no estado de morto ainda seja acometido por tal parafernália de sensações terrenas, que vão de cãibras no lugar onde antes tinha o estômago, até ao pindérico medo das alturas. Quando travam de chofre e tudo volta a ter feitio, volumes e cores, à primeira vista o que vê em baixo parece-lhe uma jangada encalhada, toda remendada e a desfazer-se nos bordos.  

 

- Estamos em Portugal, diz-lhe Jesus. Vamos ao teu funeral?

 

- Não me apetece nada… Vou-me afligir muito com o sofrimento das pessoas que amo. É absolutamente necessário?

 

- Não, não é. Não tens curiosidade de saber onde vão depositar as tuas cinzas? Boa ideia a da cremação, a propósito. Tenho uma certa preferência por essa fórmula de reciclagem do corpo físico.

 

- A sério? Sempre pensei que fosse uma prática hinduísta..., diz José, escarninho.

 

- Precisamente, ora pensa lá um bocadinho. Tu o escreveste.

 

- Pois. Não me diga que acertei?! ...Acolá, são os Açores? E aqueles ali estão... parece-me que conheço de algum lado.

 

- Ele vai dizer que nunca te viu mais gordo e por isso opta por não interromper as férias com a família.

 

- Não me dá cavaco, portanto. Ora aí está uma atitude verdadeiramente cristã: bonito gesto, não me afrontar na morte com a sua presença. Há-de ter que me gramar as cinzas debaixo de uma oliveira plantada diante da Casa dos Bicos! 

                    

- Convinha que lhe perdoasses, José.

 

- Realmente, agora não faz diferença alguma... Coitado, quando cá chegar, há-de ser o bom e o bonito!

 

- Cada um tem o céu que idealizou, José, quando cá chegar, ele terá o seu, à sua medida, correspondentemente com o que idealizou.

 

José mergulha numa rápida reflexão àcerca da explicação lógica e simples de todas as coisas, à procura do sentido a dar ao sonho depois da morte que está a viver, mas por mais voltas que dê ao pensamento, continua com maior número de perguntas que respostas.

 

- Sou todo ouvidos, diz Jesus. Pergunta o que quiseres, não dês mais tratos à cabeça.

 

Acontece-lhe um qualquer sucedânio de corar:

- Pois, já percebi que tanto dá pensar ou falar alto, vai tudo dar ao mesmo por aqui. E escrever? Pratica-se por cá?

 

- Aqui escreve-se o que se quer, como se quer, inclusive por linhas tortas. Só não tenhas expectativas de leitores, pois aos que por cá ficam, as leituras nada acrescentam e, de resto, têm mais que fazer. Os demais estão de passagem, praticamente nem aquecem o lugar...

 

- Vai-me custar perceber essa mecânica. A propósito, afinal, onde está deus?

 

- Está no meio de Nós, José.

 

- Aqui também?! Nunca dá a cara?

 

- EU SOU, José.


- Isso de ter três caras, também é muito conveniente! Pronto, com tantas evasivas, estou a ver que ainda não é desta que vejo deus a admitir os seus próprios erros...

 

- Pois enganas-te.  Trouxe-te aqui precisamente para isso. Compreendes, diante dos outros não posso desautorizar-me...


- Admites então que cometeste erros?!


- Claro. Um deles, foi deixar-Me pregar na cruz. Achei que deixar-Me matar seria a maior prova de amor. Esse momento, não só se sobrepôs a tudo mais na iconografia cristã, como deu azo a que uma mão-cheia de facínoras de muito má catadura e com as piores das intenções usassem a via sacra e a crucificação para sobrevalorizarem o sacrifício e o sofrimento. Outros, menos maus mas um bocado lerdos, distorceram tudo, acharam que era para seguir esse exemplo de dor. Todos juntos, arranjaram-na bonita! Acharam que podiam inflingir dor, um disparate. Não era nada disso, era precisamente o contrário! Já tinha vindo emendar a mão, depois de ver no que deu aquela do "olho por olho, dente por dente", entre outras, e, na volta, eis que torna tudo ao mesmo, ou pior! Mas o maior erro de todos foi confiar que a Minha centelha divina em cada um se iria sobrepor à barbárie, e que a maioria viria a reflectir a verdadeira intenção da minha encarnação na terra. 


- Emendar a mão... Ironiza José.

 

- Sim, através do amor.

 

- Até nem duvido que a intenção fosse essa, mas faz-me espécie que tu, que pelos vistos tudo podes, não tenhas dado cabo desses figurões, com um raio que os partisse, sei lá, evitando que criassem uma igreja em teu nome, à imagem e semelhança, não do que vieste cá fazer, mas de um qualquer império, praticando genocídio durante séculos. Milhões de mortos e de barbaridades inimagináveis, fora as pancadas psicológicas que subsistem até hoje e que dão coisas como padres pedófilos -sabias disto, não?, olha para o que lhes deu o "deixai vir a mim as criancinhas". Como não te deste ao trabalho de impôr os teus objectivos?!

 

- Não percebes, José. O amor não se impõe. Também não vejo o homem como títere. Demos-lhe o sopro da vida e o livre arbítrio. Se calhar, este último também foi asneira... mas a partir do momento que o criámos assim, não houve mais volta a dar-lhe. Não podemos reverter os Nossos próprios desígnios.

 

- Interessante, mas pouco consistente. Nem à palhaçada do concílio de Niceia puseste cobro! Até hoje, estamos sem saber se os evangelhos que caíram da mesa abaixo eram melhores ou piores que estes.

 

- Isso também não interessa para nada, José.

 

- Mas foi uma grande vigarice, está-se mesmo a ver! Ou foste lá mesmo escolhê-los por tuas próprias mãos?!

 

Jesus olhou-o de soslaio: - Não confirmo, nem desminto...

 

- Muito convenientemente, ambíguo e evasivo. Como pudeste consentir na ascensão e hegemonia da igreja católica, que mergulhou o mundo num sem-fim de guerras, cuja tirania durou infinitamente mais que o nazismo, torturou e matou incomensuravelmente mais gente, foi um atraso de vida para a cultura e o conhecimento?

 

- Já te disse. Tem tudo a ver com o livre arbítrio. E a concorrência também tem as suas manigâncias. Estás a ver, o nazismo é obra da concorrência.  Olha lá, antes que me esqueça, grande alarido sobre o teu livro "O Evangelho Segundo Jesus Cristo" e tal... tens noção de que não inventaste a pólvora com o desfecho? Sabes quantos antes de ti tiveram a mesma percepção, apresentaram essa, digamos, teoria? De resto, boa parte do que escreveste e afirmaste já o tinha e tem sido dito por outros, até os Cátaros, coitadinhos, e mais recentemente, umas seitas que andam para aí relacionadas com Nova Era. Só que tu eras escritor, produziste um livro, recebeste um Nobel, tornaste-te mediático e, no meio dessa tua confusão entre espiritualidade e religião, decidiste alcandorar-te numa defesa do ateísmo como forma de pacificar o planeta, que espalhaste aos quatro ventos. Olha que também me saíste um pedaço ingénuo.

 

- Não tanto, que não perceba as tuas manobras para te esquivares às questões que estava a colocar-te, trazendo-me para a berlinda. Hás-de de concordar que boa parte dos conflitos da humanidade têm que ver com divergências e preceitos religiosos. Que a religião inquinou toda a natural forma de estar entre as pessoas.

           
- Desculpas, José. Se não fosse por isso, era por outra coisa qualquer, porque o que está em causa é uma natural compulsão para o poder, e a ganância. Achámos bonito fazê-los imperfeitos e vê-los a evoluir para a perfeição. E até se dá, sabes? Alguns conseguem. Nunca pensei que a maior parte levasse tanto tempo e desse tanta chatisse! Devia ter previsto um plano B. Mea culpa.

 

- Ha ha! Admites.

           
- Julgas que Me caiem os parentes na lama? De qualquer maneira, isto não sai daqui, até porque tu não vais a lado nenhum, não é?

 

- Mas continuo na minha, já que és tão poderoso, porque não desencantas maneira de pôr cobro a todos estes colossais desmandos?!

           
- Porque já não está na Minha mão, pronto. Aliás, o desassossego e o descalabro são tamanhos, que Eu e os meus não temos mãos a medir. Andamos num virote! Vinte e quatro horas sobre vinte e quatro horas de serviço, dia após dias, ano após ano, décadas, séculos, milénios a ouvir o chamado em inglês, em espanhol, em português, chinês, árabe, hebreu, todas as línguas ao cimo da terra - SOU sempre O mesmo, percebes? "Ai Jesus! Valha-me Deus/Allah/Jeová! Pai Nosso, dá-me isto, dá-me aquilo. Livra-me disto, livra-me aquilo." Um horror! E felizmente há budistas, hinduístas, xintoístas, animistas e até adeptos da concorrência, se não, ainda era pior! Os budistas são do melhor que há, não pedincham e não se queixam. A sorte dos Budas, já viste? Por isso têm aquele ar feliz e repousado. Pudera!

           
- Pois, agora queixa-te. Estás a ver no que deu a mania da omnipotência e da omnipresença?

           
- Olha, a propósito,  tu também só vês o que te convém. Achas que se Eu não consentisse ganhavas algum Nobel e eras famoso?

 

- Para isso, já tudo podes! Por acaso acho que não meteste prego nem estopa no assunto. Ignoraste-me ostensivamente, e quando olhaste, a coisa já se tinha dado. Ora aí tens!

 

- A sério que crês nisso? Pensas que determinaste a tua própria vida inteiramente?

 

- Acho sim senhor. Quer dizer, claro que dependi de muitos juízos e de muitas acções, mas todas elas humanas, nada divinas. E lá porque afinal existes, não penses que mudei de ideias.

- Ateísmo é não acreditar em Deus. Não é confrontá-Lo, desafiá-Lo, contestá-Lo. Aliás, meu caro, na verdade, sempre achei imensa piada ao teu ateísmo. Raros foram os artistas que tanto se Nos dedicaram. Às vezes irritavas-Me um bocado, parecia que Me tratavas como se Eu fosse o dono todo-poderoso de uma multinacional à escala planetária, e tu um sindicalista. Aquela da Bíblia, contudo, foi estupenda. Como é que era... um livro de maus costumes! Olha que de certo modo, até te dou razão, parece que quanto mais a lêem pior ficam.

 

- Não percebeste nada. E, se calhar, já a fazias parar com essa história das letras maiúsculas e do "nós" majestático, não?! O que pretendia dizer era precisamente que deus foi uma invenção muito adequada às más intenções dos malévolos que pretendem o poder, só criou discórdia e conflitos porque foi instrumentalizada para atingir os objectivos das corjas dominantes. Fui ateu, sim. Deus  foi inventado por homens, contra homens. Agora que existes, o caso muda de figura, ou seja, ainda é pior. Existes, e consentes nisto tudo!

           

- Muito bem, era o que Eu queria ouvir. Rematou Jesus, triunfantemente.

(...)

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publicado por Champagne e Miniaturas às 23:52

José (cont.)

Segunda-feira, 22.08.11

 

Chegam entretanto a uma espécie de praia com estranhas colorações, coroada por um céu púrpura onde poalhas verdes de luz evoluem como auroras boreais, reflectindo-se a ouro no mar azul extenso, incrivelmente silencioso e fluorescente, que ao invés de desaguar se une ao areal irisado, como coisas feitas para estarem juntas.

 

Não me lembro de ter descrito um sonho com tais cores, mas com franqueza, posso lá lembrar-me de tudo o que escrevi.  Acho a paisagem um tanto forçada, faz-me lembrar aquelas gravuras... Nova Era, ou que é. Olha, já cá faltavam os golfinhos! ...Ou estaremos num resort todo artificial do género daqueles que se fazem no Dubai? Hoje em dia tudo é alterável à face da Terra, a bel-prazer, praticamente já não há mistérios, porque as ilusões os batem aos pontos. Não sei se me agrada sonhar assim. Sinto-me capaz de enfileirar com todos os pasmados que contemplaram pela primeira vez a passarola. E se não estou a sonhar, deliro? Se isto é real e estão a usar aqueles efeitos especiais, como no cinema?! Demasiado informal, pouco aparato protocolar para mais um prémio, embora, pelas auroras boreais, bem pudessemos estar na Noruega. Alguma reportagem de televisão? Pelo estilo, não sei se irá sair daqui grande coisa... Mas quem autorizou isto, afinal?!

 

Ao centro da praia, na orla do mar, vê um magote de gente que parece saída de um fresco renascentista, ladeando em desalinhado semi-círculo o que se lhe representa uma figura bíblica vestida de branco resplandecente, ou seja, mais um com halo todo à volta, o maior de todos os halos que se exibem, sem excepção, em torno de todos os figurantes do quadro. É assaltado por outra escrita alheia, desta vez de Eça de Queiroz: "Era, escarradamente...", logo que topa estar, sem tirar nem por, em presença do estereótipo do Jesus Cristo católico, e sobressalta-se. Sonho com as minhas personagens e só me ocorrem frases de outros escritores! Será sinal de que estou para morrer? ...E não é que o sujeito está a abrir os braços como o Cristo Redentor?! É demais! Acto contínuo, sente o envolvimento de um abraço, que devolve atabalhoadamente. Nunca gostou por aí além de manifestações públicas de afecto demasiado efusivas, e a figurinha é deveras intrigante. Que charada! Alguma cruel conspiração de uma seita das que se sentem enchofradas com as minhas diatribes contra a Igreja Católica? Ou serei antes vítima de um daqueles patéticos programas de "apanhados"?  


A figura de branco fala, projectando bonito timbre transfigurado em voz profunda. Solta pausadamente palavras sussurradas em modulação persuasiva, proferidas com a tranquilidade e firmeza messiânica dos que se sentem seguros de estar na razão, envoltas numa toada penetrante, hipnótica, ressumando endoutrinamento, transmissora de confiança, só passível de ser produzida por quem leva a peito uma missão evangelizadora, ou possui um sistema de som equipado com reverb. Apre! Parece o Francisco Louçã e todos os do Bloco de Esquerda!, ocorre-lhe.


- José, sê muito bem vindo! Sossega o espírito, estás em paz, com gente de Paz, que te quer muito bem. Quisemos receber-te de uma forma muito especial...

Trata-me por tu, por alma de quem?! -pensa- Há coisas piores, mas não o conheço de parte alguma para tanta informalidade. Nisto, tem uma iluminação: será marxista? Camarada, perdão, recorde-me o nome desta bonita localidade. E qual é a sua graça, por favor?

Um burburinho divertido percorre a comitiva da figura de branco com o super-halo, que tergiversou: José, tenho estado ansioso para conversar contigo.

 

- Isto já está a passar das marcas. Então, arrastam-me para uma conversa, e eu nem sei do que se trata. Tratam-me tu-cá tu-lá, dão-se ares, e fecham-se em copas quando peço esclarecimentos? Acho que vou acordar e acabar com isto imediatamente!

- Não podes, José, lamento -disse-lhe a figura de branco, com comiseração e a voz cheia de efeitos. Ou, por outra, não lamento que não possas acordar. Lamento ter que te dizer que não podes fazê-lo.

- Como assim?! Com que autoridade pretende controlar os meus sonhos e as minhas vigílias?! É inadmissível, além de tecnicamente impossível.


- Oh José, isso era conversa para quando estavas no mundo. Enquanto estiveste no mundo, resististe, e muito bem, ao condicionamento da tua vontade. Quer dizer, tirando uma ou outra parte da militância partidária que era um bocado escusada, mas mesmo assim nem correu mal de todo, a maior parte das vezes estiveste bem. Sabes, não se trata de uma questão de controlo e autoridade, de certa forma, por Mim, diria mais ser uma questão de ...autoria. Pode dizer-se que vives um sonho permanente, pelo menos até decidires, se decidires alguma vez voltar.


- Que arenga! Isto está a sair-me uma pessegada! Olhe que este sonho não está a fazer-me bem algum, no estado em que me encontro, não posso exaltar-me. Narrador! Faça favor de avançar!


- José, José, escutaste o que disse e percebeste lindamente. Não entres em negação, que isso tem efeitos secundários muito desagradáveis. Ainda desatas a assombrar e depois é um martírio para te estabilizar. Admite, aceita e harmoniza-te com o teu novo estado, se faz favor.

- Já não estou no mundo –profere num fio de voz, mas logo se recompõe. Não é nada de que não estivesse à espera. Quer dizer que morri, pronto. Era previsível e inevitável, mais cedo ou mais tarde. Agora, se estou morto, não posso é estar a sonhar!


- Efectivamente, não se pode dizer que estejas, mas também não se pode dizer que não estás. É uma questão de perspectiva. Se quiseres, vens de sonhar e entraste na realidade. A realidade e o sonho também são a ausência um do outro.


- Não posso crer!


- Já se ouviu! Foi o que andaste a escrever e a dizer todos estes anos...


- Acabou de aludir à minha definição do Bem e do Mal tal qual a escrevi no Evangelho Segundo... você, não é? balbuciou


- Ora até que enfim! Estava a ver que nunca mais saíamos do primeiro diálogo. Disse Jesus, sorrindo com benevolente ironia e dando-lhe uma palmada nas costas. Por vezes foste um bocadinho longe de mais, José, mas já lá vamos.

(...)

 

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publicado por Champagne e Miniaturas às 20:50





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