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Domingo, 14.08.11

Como de costume, pasmou com a quantidade medonha de gente avulsa engalfinhada, dardejando olhares, sibilando "censa", fedendo até à náusea, e empreendendo a avaliação detalhada das tipologias sociais e nacionalidades expostas, produziu a primeira reflexão lapidar do dia: "Caramba, tanto brasileiro, tanto africano, tanto cidadão de Leste! Mas ninguém tem mão nisto?! Entra aqui tudo! Sai-se à rua e ouve-se falar mais português com sotaque, que outra coisa. Entra-se no supermercado, no café, em qualquer loja e, em cada três empregados, dois são brasileiros, e já não há pachorra para tanto "oi". Longe vai o tempo em que o sotaque do Brasil remetia para o exotismo que o imaginário português sempre acalentou. Aliás, ouvir sotaque brasileiro queria dizer que estávamos no Brasil, recebíamos amigos brasileiros de visita a Lisboa, ou ouvíamos alguma composição de algum dos seus muitos génios musicais... Hoje em dia, para todos os que ficam em terra deste lado do oceano, o sotaque do Brasil passou à mais corriqueira das banalidades."

A mente convoca muitos rostos amigos de além-mar, incluindo aqueles de que já se encontra desfalcada. Outro efeito secundário de envelhecer é a procissão de perdas para a morte de pessoas a quem se quer bem. É certo que outros bens-querer vão chegando, mas ao correr dos anos, o fluxo torna-se desproporcional e chega a perguntar-se o que fazer com o afecto sobrante. Vão-se somando aos anos, os ausentes, a ponto de por vezes pensar no dia em que já não vai restar mais ninguém e uma pessoa fica como aquele homem sozinho numa aldeia onde já morreram todos, que deu outro dia no telejornal! Agora está na moda falar em aldeia global, mas neste caso, é mais aldeia mortal, coitado!

 

Alice sustenta recordações antagónicas do Brasil, entre clichéticas passagens pelo Rio e todas as cidades-ícone de circuito turístico, visitadas amiúde e desde cedo, ainda criança com pai e mãe, e o horrífico período em que o marido foi opiparamente contratado para a refinaria em Manaus, a mãe dos deuses. No Olimpo caboclo, deslumbrada pelo maior acervo brasileiro de Art Nouveau, apaziguada pela gente tranquila da "cidade do sorriso", aconchegou-se na belíssima casa de Adrianópolis, mas viver paredes-meias com a floresta amazónica é estar na constante eminência da invasão de todo o tipo de bicharada rastejante e voadora. O mais insignificante dos bichos é desmesurado e perigoso na exuberante Amazónia. Aprendeu a apanhar tarântulas no relvado do jardim, emborcando-lhes pacotes de manteiga por cima. Ficavam incrustadas na manteiga, depois, descolavam-se com muita cautela sobre o gargalo largo de um frasco rapidamente arrolhado, e levavam-se ao Instituto Butantã.  Apesar desse arrojo operacional, nunca a sinistra presença das aranhas lhe foi indiferente e andava pela casa sempre alerta. E daquela vez que lanchavam no jardim e viu, com estupor, uma a trepar pelas costas do cadeirão onde estava sentada a mulher do adido cultural da embaixada (como se chamava ela?...). Teve que lhe dar um piparote com o guardanapo e foi a debandada geral da civilidade do chá para a descabelada histeria de um bando de finíssimas senhoras a dançarem uma espécie de twist em cima das cadeiras, guinchando e arrepelando-se como teenagers num espectáculo dos Beatles! Uma noite acordou com os gritos da filha à porta da casa de banho perante uma coral enroscada atrás da sanita, noutra vez, deram com uma à beira da piscina, rapidamente separada em duas quando o jardineiro lhe aplicou um golpe certeiro com a pá. Os filhos e o marido aprenderam a distinguir no esplendor da cor os sinais distintivos das coral venenosas, das falsas coral, estabelecendo com as últimas relações pacíficas, mas para ela, veneno era apenas um aditivo que magnificava o medo. Os seis anos passados na antiga capital da borracha foram uma agonia de susto para Alice, que neste trecho acaba de adquirir nome próprio.

 

Como no enredo dum filme de autor que urde subliminares correspondências simbólicas, enquanto se debatia contra-vontade em tal ecossistema, verdadeira peçonha contaminava o já comprometido casamento, pondo-o num estado comatoso do qual nunca recuperou. Serpentes e aranhas tornaram-se animismos de mentiras subreptícias, sentimentos com colmilhos cheios de veneno e frases sibilinas, que desde os três meses do mais velho e ainda em Portugal, tinham passado a acoitar-se por todos os recantos do casal, imóveis e dormentes, à espera da oportunidade de atacar. O ascendente engenheiro exercia o costume de frequentar mulheres de mau porte. Alice cedo o descobriu, mas tarde demais para arrepiar caminho num labirinto de fórmulas de parecer bem onde só se admitia escândalo e ostracismo a mulher que ousasse não fechar os olhos e enjeitasse o seu papel de parideira e fada do lar. A lei condescendia no divórcio havendo escândalo público, mas a prática era consentida, comum aos insígnes chefes de família-pilar-da-nação-salazarista, portanto, encoberta e tolerada. Reflectiu-o a resposta da mãe, quando a procurou lavada em lágrimas: deixe-se disso ponha-se no seu lugar e faça de conta que não dá por nada não dê parte de fraca acha que só lhe acontece a si o que quer. É homem.

Bem-parecido, bem falante, bem nascido e bem pensante, Marcelo foi a melhor das opções num mundo que só tinha duas: casar ou ficar para tia. As ligações de família, para não variar num país onde o nepotismo é atávico, levaram-no ao posto na Gazcidla -"Uma chama viva, onde quer que viva!"-mas o pavio ardeu depressa e três filhos consecutivos depois, só restavam as brasas que coziam o casamento em banho-maria. Entre "Modas e Bordados", "Crónica Feminina" e receitas de Maria de Lurdes Modesto, foi intercalando leituras à socapa, périplos autorizados por galerias de arte, concertos em matiné, e escrevendo vez por outra o seu poema, guardado a sete chaves como carta de um amante.

Em Manaus, as Marias foram substituídas por Jussaras, e Alice partilhava os dias com cobras e tarântulas. Nesse tempo, porém, já se demorava ao espelho, adivinhando cabelos brancos, profetizando rídulas e avaliando as ínfimas expansões do corpo. De volta a Portugal, em plena primavera marcelista, sentiu-se capaz de enfrentar cobras e lagartos, e pediu o divórcio. Precisamos falar, Marcelo. Tem que ser agora? ...Só tenho dois minutos. Bom, dois minutos só dá para dizer: deixe aí as chaves, se faz favor! Claro que não deixou, claro que esgarçou a boca com um sorriso sardónico, disse está doida?! e saiu porta fora. Quando voltou à noite, deu com o resultado de um dia inteiro de azáfama com a criada Felismina enfiado nas malas de viagem enfileiradas no corredor. Foi aí que deflagrou a guerra, pelos teres e haveres, pela custódia dos filhos, pelo ego, pelo nome, pela face, pelo estilo, pela lei e pela grei! Alice ganhou os filhos a troco de tudo o mais.

Arranjou emprego como secretária, depois de tirar à pressa um curso de estenografia e dactilografia. Num mercado escasso em boas ofertas de trabalho para mulheres, foi ao que chegou com o sétimo ano do liceu, escolaridade bastante para votar na Junta da Freguesia, nada menos, nada mais! Fez traduções de francês e bolos chiffon, rissóis de camarão, e pastéis de massa tenra com sobras de carne assada. Na casa solicitada ao património dos pais e concedida em atenção aos netos, nos dias de jantar sopa e pão com fiambre, só lhe valia a rápida intervenção da cunhada Laura, oásis no deserto para onde a jogou a própria família, já que os demais se renderam à reprovação da progenitura incapaz de digerir o divórcio, eficaz na manipulação via Rio de Janeiro, para onde se auto-exilou imediatamente após o 25 de Abril.

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publicado por Champagne e Miniaturas às 15:13





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