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Segunda-feira, 15.08.11

Homens, uns poucos, primeiro a medo, depois com militância libertina. Todos foram transeuntes menos um, que teve tempo de desbaratar o seu quinhão do património dos pais, desde logo a dividir pela prole de cinco produzida pela dupla, parcialmente delapidado por nacionalizações e tomadas de posse por cooperativas.

 

Tão estereotipado casal dentro do género improvável, só poderia dar o céu ou o inferno. Artista multifacetado e medíocre em todas as facetas, extremista de esquerda, quinze anos exactos mais jovem, recolhido como bicho sem dono, recebido como semi-deus, nunca o menor indício de ignomínia se manifestou nas desmazeladas camisas de xadrez fora das calças, nos cabelos revoltos e mal cortados e, sobretudo, no olhar azul de anjo estupefacto com a visão do mundo. Num ápice, estava de mala e cuia na casa que apenas Gonçalo ainda partilhava com a mãe, mas foi geral a crispação dos filhos. 

 

Ao correr dos dias, cada um seguiu um ponto cardeal. Em Nova Iorque, Paula instalou-se no curso de Bioquímica e no alto e eminente marido cientista Bob, dando à luz a filha Cynthia; Manuel Maria montou uma empresa de marketing, fez dois netos louros em parceria com uma pedantíssima nora fluente em sotaque da Linha; Gonçalo pinta mal, toca pior e faz algum dinheiro com projectos de design, quando se desenrosca dos braços dos amantes. Ao menos agora já pode casar, pode ser que assente, pensa Alice e casquina mordazmente. Com toda a sua liberalidade e cosmopolitismo, não assimila o casamento de homossexuais. Afigura-se-lhe absurdo e sente-se algo traída e indignada, pois foram muitas as décadas de constrangimento que os hetero encararam pela frente até se libertarem dessa canga social e seus efeitos colaterais. Sobretudo as mulheres. Impossível perceber por que carga d'água se reinvidica com tanto afinco o direito a algo que nunca deveria ter existido. Uma invenção dos infernos da Igreja Católica Apostólica Românica. De repente, ri-se a bandeiras despregadas quando se dá conta da divina ironia.

 

Gonçalo capitulou às estocadas homofóbicas, ao mau pressentimento e à progressiva perda de terreno para o namorado da mãe. Como tarântula, Luís foi urdindo a trama, talvez não premeditada, mas inexorável no exercício de poder mesmerizante sobre Alice. Convenceu-a a abrir um bar em sociedade, com exposições e música ao vivo, bem ao jeito da década de 90. No fim das contas, encheu-se de álcool, cocaína e dívidas. Vendeu-lhe coisas de casa sem seu conhecimento, foi-lhe à carteira, à conta bancária pessoal. Quando estouraram os conflitos, afrontou-a com uma miúda de vinte e três anos, a quem fez um filho. Depois, desapareceu no mundo, mas as dívidas ficaram e Alice iniciou uma via sacra de processos de credores e penhoras. 

 

Caír na penúria é pior que anunciar um cancro. A falta de dinheiro é uma espécie de lepra social, as pessoas agem como se fosse contagioso. É tolerável ombrear com pessoas dúbias, medíocres, chatas, com pancadas, salpicadas no curriculum por episódios emocionais e comportamentais translúcidos ou movimentações ascensionais obscuras, mas a falta de dinheiro subverte tudo. Amigos de há trinta anos viraram-lhe a cara, agiram como se a sua aflição fosse impertinência. Os periféricos lavaram as mãos e comentaram entre si e o mais possível, lambendo os beiços com cínica comiseração, lamentando o infortúnio, apimentando enredos, cozinhando intriguilhas, aliviados por não ser nada com eles, e depenicando clichés profusamente impregnados de ciência da vida de pacotilha. Tudo gente capaz de dar a camisa e uma palestra por amor ao próximo, que se desunhava a marcar pontos no ranking dos contributos para causas sociais longínquas, arrematando assim a tranquilidade da consciência.


Retém como uma relíquia a memória do dia em que decidiu engolir orgulho e dignidade, ligando para a Maria Helena, que tantas vezes lhe tinha prodigalizado provas de amizade, tendo-lhe oferecido até, um certo dia, num arroubo de expontânea e incontrolável generosidade, um bonito casaco de estilista de primeira linha que Alice lhe tinha gabado com sinceridade e sem a menor sombra de cobiça. Desta vez, Alice pediu-lhe embaraçada e de modo desajeitado, cem contos. Maria Helena cumpriu escrupulosamente a sua imagem generosa e boa. Proferiu uma série de frases de consolo, repletas de alento. Disse-lhe que precisava consultar o contabilista e o marido, e que até ao final do dia lhe ligaria com novidades. Já de saída do café onde se encontraram, Maria Helena chutou: sabes o que é... acabei de gastar mil contos na Loja das Meias, imagina! Até hoje, Alice pergunta-se se o soco no estômago foi deliberadamente aplicado, ou produto puro destilado de supina inconsciência frívola. Claro que a chamada telefónica nunca sucedeu, e claro que Alice nunca mais fez questão de encontrar Maria Helena. Ofereceu o famoso casaco à porteira.

(cont.) 

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publicado por Champagne e Miniaturas às 18:53





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