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Champagne e Miniaturas (cont.)

Sexta-feira, 19.08.11

Para Alice, o Metro é uma montra onde se exibem os pedaços crús das filas de baixo da cadeia alimentar montada pelo falacioso desenvolvimento. "Somos europeus... é preciso ter lata! Somos tudo e mais alguma coisa!". O slogan automaticamente lhe convoca outro : "Orgulhosamente sós!". Oponíveis formalmente, a quarenta anos de distância um do outro, mas a Alice soam-lhe subliminarmente a trezentos e sessenta graus, ou seja, uma volta completa num círculo, para desembocar na intangibilidade. 

 

Observa tudo e todos minuciosamente, não deixando escapar o mínimo detalhe que lhe pareça indício do crime da perda de civilização. Censura o pneu descoberto das barrigas entaladas entre tops e calças de ganga baratuchas a imitar as caras, os estilhaços encarnados de verniz nas unhas dos pés, as malas contrafeitas "davuton". Choca-se com os maus modos, intriga-se com o olhar alheado, que quando estabelece contacto é hostil como o de um gladiador enfrentando outro no circo "Ave, Caeser, morituri te salutant". Não percebe o que se passa com as pessoas, ou por outra, tem a sua teoria: acha que está tudo doido. Sobretudo, tem pena. Uma compaixão imensa por esta gente que povoa o subsolo da cidade, exibindo no rosto o mapa da rota do cabo dos tormentos, consumindo como drogas logros criados para que mantenham a ilusão da esperança.

 

Os estandartes estão desfraldados em todas as estações, com gente bonita e triunfante porque ingere aquela marca de iogurte com microorganismos que dão por nomes de ressonâncias latinas, mas ninguém sabe o que são; bebe aquele refrigerante cheio de ingredientes que não interessam para nada; lava o cabelo com champô de frutas que não lembravam ao careca, e, à falta do submarino do Almada para se ir chatear debaixo de água, vai ao Rock in Rio aos magotes para não perder o hábito de andar encavalitado. Os viajantes do metro estão quase todos nos antípodas dos modelos que lhes servem de figurino, mas perseguem-nos sem darem conta que se afastam de si mesmos irreversivelmente, seguindo uma bússula sem ponteiro, perdidos sem apelo porque convictos ao absurdo de estarem no rumo certo para chegar ao Eldorado, um belo dia. Garimpam o empréstimo da casa, o cartão de crédito, jogam no euromilhões, escarafuncham raspadinhas, na expectativa da ocasião em que a grande pepita os vai fazer ricos, bonitos e famosos, sem poderem dar-se ao luxo de perceber que tudo o que têm, é o suficiente para que alguns possam ter tudo quanto existe. Revêem-se nos casos de sucesso mediático que viram símbolos identitários -gente do futebol que tem filhos por encomenda ou artistas de renome internacional cujo maior alento inspirativo é alpinismo social- com um misto de inveja e enlevo serôdio, convencidos que se também tivessem nascido com o traseiro virado para a Lua, também tinham lá chegado.  Detêm uma colecção notável de opiniões que rapam sobre todos os assuntos, ao mesmo tempo que dão tratos à cabeça a ver se descobrem a fórmula química do dinheiro elástico.

 

Duas estações mais tarde, vagou um lugar que ocupou consoladamente junto de uma mulher debruçada sobre um iPhone. Observou-a de relance enquanto se recostava e repousava as mãos cruzadas sobre o cabo curvo do guarda-chuva. Achou-lhe bom ar, apesar do pretensioso artefacto, e tinha as unhas arranjadas. Viam-se bem, porque deslizava os dedos no ecran daquilo. Foi lançando frases como iscos, mas a sujeita não descolava da geringonça, credo! Os outros à volta iam remirando com o ar desdenhoso e escarnecedor do costume, e o seu destino aproximava-se.

 

In extremis, virou-se a três quartos para a mulher do complicado telemóvel, esticando perpendicularmente o pescoço, engatilhou o sorriso e disparou: champagne e miniaturas, acha bem? 

 

A outra emergiu do iPhone e entregou-lhe, finalmente, o olhar atarantado. Fixava-a como quem mastiga, e espera a próxima colherada a ver se descobre a natureza do manjar.

 

- Serviram champagne com miniaturas! Ao que isto chegou!


Alice aproximava-se da estação do destino, ergueu-se, pediu licença umas poucas de vezes e saiu com a tarefa já cumprida. Entregara o mote do primeiro conto que aquela mulher iria escrever. Orientou-se para a saída, seguindo as placas indicadoras com hesitação. Ao fundo do túnel, achou luz. Chovia miudamente. Abriu o guarda-chuva verde e harmonizou-se com a brisa. Quando uma rajada de vento insuflou de leve o tecido impermeável, Alice deu conta da perda de contacto dos pés com o chão, e segurou-se firmemente ao guarda-chuva, usando as duas mãos. Lentamente, as botas rasas de verniz preto foram ganhando distância das acidentadas pedras da calçada à portuguesa. Aos cinquenta metros de altura, abriu os olhos e viu os prédios, as ruas, as pessoas cada vez menores, a caminho de se parecerem com um mapa miniatural.

 

Ao que isto chegou!, disse, antes de ficar encoberta por uma nuvem.

 

FIM

 

 

 

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publicado por Champagne e Miniaturas às 19:55





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