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José

Domingo, 21.08.11


E agora, José?, ocorre-lhe logo que vislumbra o túnel, escandalizado consigo mesmo pela impertinente lembrança do verso do Carlos Drummond de Andrade, não por desgostar do autor, nem dos versos, mas porque a ocasião, seja ela qual for, merece algo inédito e, de preferência, próprio e lapidar. Uma frase daquelas que depois se arriscam a aparecer transcritas em minúsculos livros de citações a despropósito de um tema qualquer mimoso ou de elevado pendor, ordinariamente depostos sobre os balcões das livrarias à mão de semear da compra por impulso junto à caixa registadora, ou o que se há-de chamar à híbrida maquineta actualmente em uso, arraçada de computador. 

 

Excesso de luz, pensou, uma pessoa fica praticamente atordoada. Sente-se bem, como há muito não sentia, muito atrás de adoecer, antes de ser progressivamente minado pelo alastrar dos anos, alquebrando, secando, ganhando pigmentos, perdendo cabelos, e por fim o fôlego. Move-se jovem como já não tinha memória física de ter sido, e perto de se comover com isso. Belo sonho. Só gostava de saber como vim aqui parar. É que tem a impressão de ter sido convocado, de estar ali para cumprir um compromisso, só não se lembra com quem e de que se trata. Deu-se conta de não estar na cama quando já caminhava por um corredor sem princípio nem fim, cujos limites em largura e extensão parecem constituídos por metal frio em estado líquido, sem portas nem janelas, mobília ou qualquer espécie de ornamentos. Apenas luz que converge para mais luz ao fundo, ou talvez dele irradie com um fulgor impossível. Não se vê viv'alma, nem vestígios de mão de gente, no entanto, frui que não está só, como se alguém o acompanhasse guiando-o na direcção do foco. Confortado pelo alívio das dores, deleitado pela facilidade com que respira, liberto da ditadura da doença, caminha gostosamente. De tão leve, dir-se-ia que paira.

 

Ao fundo do túnel está alguém, mais precisamente, um vulto emoldurado num halo. Percebe imediatamente que sorri, percepciona sem ver a bonomia do olhar. Não lhe distingue feições, mas por fenómeno ainda sem explicação as expressões faciais são nítidas, não sabe se as vê com os próprios olhos, se o assiste outro sentido que não qualquer dos consabidos cinco. Sorri de volta, determinado, mas com algum embaraço, bom dia, desculpe, qual o nome deste lugar? Faz tempo que não me é possível aceitar compromissos, nem fazia ideia que tinha algo agendado... De que se trata, por gentileza? O vulto estende-lhe as mãos paralelas, de palmas abertas e ligeiramente em concha. José devolve-lhe um rasgado cumprimento e surpreende-se com o vigor com que o faz. Já a mão do outro, parece-lhe diáfana, quase inexistente, embora emanando um bem-estar com acção distensora e indutora de sorrisos rasgados, que é o que se passa consigo, compulsivamente, pensa, ao constatar o próprio sorriso alardeado de orelha a orelha. Estava capaz de afiançar que não o viu mover os lábios, mas ouviu audivelmente, sou o Abel e fiz questão de recebê-lo... em pessoa. Siga comigo, por favor, já o esperam.

 

Estou atrasado?! As minhas desculpas, repito, não fazia a menor ideia de ter este compromisso, prossegue um tanto constrangido, é que não tenho estado muito bem, com certeza já ouviu dizer... Hesita um segundo e acrescenta entredentes, num murmúrio desamparado, estou bastante confuso, não estava a contar... Na verdade, nem sei onde estou... Não fui informado e não costumo andar sozinho.

 

Abel envolve-lhe o cotovelo, reconfortando-o e impelindo-o para diante com suavidade. Chegou à hora marcada, não se apoquente, e é natural que esteja confuso, todos ficam. Vamos andando. José detém-se na coincidência e não resiste ao remoque. Abel, disse, é o seu nome? Como o bom irmão? O vulto responde com simpatia algo divertida, confirmando com um ligeiro aceno de cabeça. Bom, pensa José, se fizeram de propósito, não lhes falta sentido de humor. Hostilidade, não me parece, caso contrário, mandavam antes um chamado Caim. Solta uma abafada risada que, surpreendentemente, faz coro com a gargalhada simultânea produzida por Abel. Que diabo!? (o Abel franziu o cenho?), se calhar verbalizei o que pensei, sem me dar conta! Que partidas me prega a mente, entre velhice, remédios e doença!

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publicado por Champagne e Miniaturas às 21:30





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