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José (cont.)

Segunda-feira, 22.08.11

 

Chegam entretanto a uma espécie de praia com estranhas colorações, coroada por um céu púrpura onde poalhas verdes de luz evoluem como auroras boreais, reflectindo-se a ouro no mar azul extenso, incrivelmente silencioso e fluorescente, que ao invés de desaguar se une ao areal irisado, como coisas feitas para estarem juntas.

 

Não me lembro de ter descrito um sonho com tais cores, mas com franqueza, posso lá lembrar-me de tudo o que escrevi.  Acho a paisagem um tanto forçada, faz-me lembrar aquelas gravuras... Nova Era, ou que é. Olha, já cá faltavam os golfinhos! ...Ou estaremos num resort todo artificial do género daqueles que se fazem no Dubai? Hoje em dia tudo é alterável à face da Terra, a bel-prazer, praticamente já não há mistérios, porque as ilusões os batem aos pontos. Não sei se me agrada sonhar assim. Sinto-me capaz de enfileirar com todos os pasmados que contemplaram pela primeira vez a passarola. E se não estou a sonhar, deliro? Se isto é real e estão a usar aqueles efeitos especiais, como no cinema?! Demasiado informal, pouco aparato protocolar para mais um prémio, embora, pelas auroras boreais, bem pudessemos estar na Noruega. Alguma reportagem de televisão? Pelo estilo, não sei se irá sair daqui grande coisa... Mas quem autorizou isto, afinal?!

 

Ao centro da praia, na orla do mar, vê um magote de gente que parece saída de um fresco renascentista, ladeando em desalinhado semi-círculo o que se lhe representa uma figura bíblica vestida de branco resplandecente, ou seja, mais um com halo todo à volta, o maior de todos os halos que se exibem, sem excepção, em torno de todos os figurantes do quadro. É assaltado por outra escrita alheia, desta vez de Eça de Queiroz: "Era, escarradamente...", logo que topa estar, sem tirar nem por, em presença do estereótipo do Jesus Cristo católico, e sobressalta-se. Sonho com as minhas personagens e só me ocorrem frases de outros escritores! Será sinal de que estou para morrer? ...E não é que o sujeito está a abrir os braços como o Cristo Redentor?! É demais! Acto contínuo, sente o envolvimento de um abraço, que devolve atabalhoadamente. Nunca gostou por aí além de manifestações públicas de afecto demasiado efusivas, e a figurinha é deveras intrigante. Que charada! Alguma cruel conspiração de uma seita das que se sentem enchofradas com as minhas diatribes contra a Igreja Católica? Ou serei antes vítima de um daqueles patéticos programas de "apanhados"?  


A figura de branco fala, projectando bonito timbre transfigurado em voz profunda. Solta pausadamente palavras sussurradas em modulação persuasiva, proferidas com a tranquilidade e firmeza messiânica dos que se sentem seguros de estar na razão, envoltas numa toada penetrante, hipnótica, ressumando endoutrinamento, transmissora de confiança, só passível de ser produzida por quem leva a peito uma missão evangelizadora, ou possui um sistema de som equipado com reverb. Apre! Parece o Francisco Louçã e todos os do Bloco de Esquerda!, ocorre-lhe.


- José, sê muito bem vindo! Sossega o espírito, estás em paz, com gente de Paz, que te quer muito bem. Quisemos receber-te de uma forma muito especial...

Trata-me por tu, por alma de quem?! -pensa- Há coisas piores, mas não o conheço de parte alguma para tanta informalidade. Nisto, tem uma iluminação: será marxista? Camarada, perdão, recorde-me o nome desta bonita localidade. E qual é a sua graça, por favor?

Um burburinho divertido percorre a comitiva da figura de branco com o super-halo, que tergiversou: José, tenho estado ansioso para conversar contigo.

 

- Isto já está a passar das marcas. Então, arrastam-me para uma conversa, e eu nem sei do que se trata. Tratam-me tu-cá tu-lá, dão-se ares, e fecham-se em copas quando peço esclarecimentos? Acho que vou acordar e acabar com isto imediatamente!

- Não podes, José, lamento -disse-lhe a figura de branco, com comiseração e a voz cheia de efeitos. Ou, por outra, não lamento que não possas acordar. Lamento ter que te dizer que não podes fazê-lo.

- Como assim?! Com que autoridade pretende controlar os meus sonhos e as minhas vigílias?! É inadmissível, além de tecnicamente impossível.


- Oh José, isso era conversa para quando estavas no mundo. Enquanto estiveste no mundo, resististe, e muito bem, ao condicionamento da tua vontade. Quer dizer, tirando uma ou outra parte da militância partidária que era um bocado escusada, mas mesmo assim nem correu mal de todo, a maior parte das vezes estiveste bem. Sabes, não se trata de uma questão de controlo e autoridade, de certa forma, por Mim, diria mais ser uma questão de ...autoria. Pode dizer-se que vives um sonho permanente, pelo menos até decidires, se decidires alguma vez voltar.


- Que arenga! Isto está a sair-me uma pessegada! Olhe que este sonho não está a fazer-me bem algum, no estado em que me encontro, não posso exaltar-me. Narrador! Faça favor de avançar!


- José, José, escutaste o que disse e percebeste lindamente. Não entres em negação, que isso tem efeitos secundários muito desagradáveis. Ainda desatas a assombrar e depois é um martírio para te estabilizar. Admite, aceita e harmoniza-te com o teu novo estado, se faz favor.

- Já não estou no mundo –profere num fio de voz, mas logo se recompõe. Não é nada de que não estivesse à espera. Quer dizer que morri, pronto. Era previsível e inevitável, mais cedo ou mais tarde. Agora, se estou morto, não posso é estar a sonhar!


- Efectivamente, não se pode dizer que estejas, mas também não se pode dizer que não estás. É uma questão de perspectiva. Se quiseres, vens de sonhar e entraste na realidade. A realidade e o sonho também são a ausência um do outro.


- Não posso crer!


- Já se ouviu! Foi o que andaste a escrever e a dizer todos estes anos...


- Acabou de aludir à minha definição do Bem e do Mal tal qual a escrevi no Evangelho Segundo... você, não é? balbuciou


- Ora até que enfim! Estava a ver que nunca mais saíamos do primeiro diálogo. Disse Jesus, sorrindo com benevolente ironia e dando-lhe uma palmada nas costas. Por vezes foste um bocadinho longe de mais, José, mas já lá vamos.

(...)

 

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publicado por Champagne e Miniaturas às 20:50





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