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José (cont.)

Quinta-feira, 25.08.11

 

- Sendo assim, prossegue José, passemos ao segundo diálogo. Faça favor de tomar tento: escrevi a minha perspectiva convicta sobre o embuste judaico-cristão e a igreja católica apostólica romana, e o seu constrangimento sobre a humanidade. Não retiro uma palavra. Repare, sinceramente nem estou contrariado por estar aqui, mas confesso que estou desapontado. Acho o cenário e o guarda-roupa muito previsíveis.

 

- Aqui entre nós, isso é da responsabilidade da escrevente. O imaginário dela não chega para mais. Em verdade te digo que o enquadramento é indiferente, somos como Nos vêem, porque não Nos parecemos com alguma coisa que exista na dimensão de onde acabas de chegar. Por isso, pouco importa se Me colocou nestas vestimentas e com  este aspecto, a praia onírica que inventou também é irrelevante e até estas palavras são escusadas, pois não precisamos delas e, quando tem mesmo que ser, preferimos manifestar-Nos noutras línguas, como o aramaico ou o sânscrito.

 

- Pronto, já que aqui estou, diga-me: e agora,  o que acontece?

 

- Vamos dar uma volta.

 

Jesus rodeia-o com um braço e José tem a impressão de voarem, o que o remete de imediato para o episódio do Novo Testamento da Tentação de Cristo, mas ao contrário. Dá-lhe a impressão que pode dar-se o caso de estar prestes a ser tentado a ter fé nas suas próprias palavras. O turbilhão de luzes que se segue parece efeito da toma de um alucinogénio e lembra-lhe passagens do "2001 Odisseia no Espaço", banda sonora incluída. Segura-se com unhas e dentes à túnica do Cristo, estranhando que no estado de morto ainda seja acometido por tal parafernália de sensações terrenas, que vão de cãibras no lugar onde antes tinha o estômago, até ao pindérico medo das alturas. Quando travam de chofre e tudo volta a ter feitio, volumes e cores, à primeira vista o que vê em baixo parece-lhe uma jangada encalhada, toda remendada e a desfazer-se nos bordos.  

 

- Estamos em Portugal, diz-lhe Jesus. Vamos ao teu funeral?

 

- Não me apetece nada… Vou-me afligir muito com o sofrimento das pessoas que amo. É absolutamente necessário?

 

- Não, não é. Não tens curiosidade de saber onde vão depositar as tuas cinzas? Boa ideia a da cremação, a propósito. Tenho uma certa preferência por essa fórmula de reciclagem do corpo físico.

 

- A sério? Sempre pensei que fosse uma prática hinduísta..., diz José, escarninho.

 

- Precisamente, ora pensa lá um bocadinho. Tu o escreveste.

 

- Pois. Não me diga que acertei?! ...Acolá, são os Açores? E aqueles ali estão... parece-me que conheço de algum lado.

 

- Ele vai dizer que nunca te viu mais gordo e por isso opta por não interromper as férias com a família.

 

- Não me dá cavaco, portanto. Ora aí está uma atitude verdadeiramente cristã: bonito gesto, não me afrontar na morte com a sua presença. Há-de ter que me gramar as cinzas debaixo de uma oliveira plantada diante da Casa dos Bicos! 

                    

- Convinha que lhe perdoasses, José.

 

- Realmente, agora não faz diferença alguma... Coitado, quando cá chegar, há-de ser o bom e o bonito!

 

- Cada um tem o céu que idealizou, José, quando cá chegar, ele terá o seu, à sua medida, correspondentemente com o que idealizou.

 

José mergulha numa rápida reflexão àcerca da explicação lógica e simples de todas as coisas, à procura do sentido a dar ao sonho depois da morte que está a viver, mas por mais voltas que dê ao pensamento, continua com maior número de perguntas que respostas.

 

- Sou todo ouvidos, diz Jesus. Pergunta o que quiseres, não dês mais tratos à cabeça.

 

Acontece-lhe um qualquer sucedânio de corar:

- Pois, já percebi que tanto dá pensar ou falar alto, vai tudo dar ao mesmo por aqui. E escrever? Pratica-se por cá?

 

- Aqui escreve-se o que se quer, como se quer, inclusive por linhas tortas. Só não tenhas expectativas de leitores, pois aos que por cá ficam, as leituras nada acrescentam e, de resto, têm mais que fazer. Os demais estão de passagem, praticamente nem aquecem o lugar...

 

- Vai-me custar perceber essa mecânica. A propósito, afinal, onde está deus?

 

- Está no meio de Nós, José.

 

- Aqui também?! Nunca dá a cara?

 

- EU SOU, José.


- Isso de ter três caras, também é muito conveniente! Pronto, com tantas evasivas, estou a ver que ainda não é desta que vejo deus a admitir os seus próprios erros...

 

- Pois enganas-te.  Trouxe-te aqui precisamente para isso. Compreendes, diante dos outros não posso desautorizar-me...


- Admites então que cometeste erros?!


- Claro. Um deles, foi deixar-Me pregar na cruz. Achei que deixar-Me matar seria a maior prova de amor. Esse momento, não só se sobrepôs a tudo mais na iconografia cristã, como deu azo a que uma mão-cheia de facínoras de muito má catadura e com as piores das intenções usassem a via sacra e a crucificação para sobrevalorizarem o sacrifício e o sofrimento. Outros, menos maus mas um bocado lerdos, distorceram tudo, acharam que era para seguir esse exemplo de dor. Todos juntos, arranjaram-na bonita! Acharam que podiam inflingir dor, um disparate. Não era nada disso, era precisamente o contrário! Já tinha vindo emendar a mão, depois de ver no que deu aquela do "olho por olho, dente por dente", entre outras, e, na volta, eis que torna tudo ao mesmo, ou pior! Mas o maior erro de todos foi confiar que a Minha centelha divina em cada um se iria sobrepor à barbárie, e que a maioria viria a reflectir a verdadeira intenção da minha encarnação na terra. 


- Emendar a mão... Ironiza José.

 

- Sim, através do amor.

 

- Até nem duvido que a intenção fosse essa, mas faz-me espécie que tu, que pelos vistos tudo podes, não tenhas dado cabo desses figurões, com um raio que os partisse, sei lá, evitando que criassem uma igreja em teu nome, à imagem e semelhança, não do que vieste cá fazer, mas de um qualquer império, praticando genocídio durante séculos. Milhões de mortos e de barbaridades inimagináveis, fora as pancadas psicológicas que subsistem até hoje e que dão coisas como padres pedófilos -sabias disto, não?, olha para o que lhes deu o "deixai vir a mim as criancinhas". Como não te deste ao trabalho de impôr os teus objectivos?!

 

- Não percebes, José. O amor não se impõe. Também não vejo o homem como títere. Demos-lhe o sopro da vida e o livre arbítrio. Se calhar, este último também foi asneira... mas a partir do momento que o criámos assim, não houve mais volta a dar-lhe. Não podemos reverter os Nossos próprios desígnios.

 

- Interessante, mas pouco consistente. Nem à palhaçada do concílio de Niceia puseste cobro! Até hoje, estamos sem saber se os evangelhos que caíram da mesa abaixo eram melhores ou piores que estes.

 

- Isso também não interessa para nada, José.

 

- Mas foi uma grande vigarice, está-se mesmo a ver! Ou foste lá mesmo escolhê-los por tuas próprias mãos?!

 

Jesus olhou-o de soslaio: - Não confirmo, nem desminto...

 

- Muito convenientemente, ambíguo e evasivo. Como pudeste consentir na ascensão e hegemonia da igreja católica, que mergulhou o mundo num sem-fim de guerras, cuja tirania durou infinitamente mais que o nazismo, torturou e matou incomensuravelmente mais gente, foi um atraso de vida para a cultura e o conhecimento?

 

- Já te disse. Tem tudo a ver com o livre arbítrio. E a concorrência também tem as suas manigâncias. Estás a ver, o nazismo é obra da concorrência.  Olha lá, antes que me esqueça, grande alarido sobre o teu livro "O Evangelho Segundo Jesus Cristo" e tal... tens noção de que não inventaste a pólvora com o desfecho? Sabes quantos antes de ti tiveram a mesma percepção, apresentaram essa, digamos, teoria? De resto, boa parte do que escreveste e afirmaste já o tinha e tem sido dito por outros, até os Cátaros, coitadinhos, e mais recentemente, umas seitas que andam para aí relacionadas com Nova Era. Só que tu eras escritor, produziste um livro, recebeste um Nobel, tornaste-te mediático e, no meio dessa tua confusão entre espiritualidade e religião, decidiste alcandorar-te numa defesa do ateísmo como forma de pacificar o planeta, que espalhaste aos quatro ventos. Olha que também me saíste um pedaço ingénuo.

 

- Não tanto, que não perceba as tuas manobras para te esquivares às questões que estava a colocar-te, trazendo-me para a berlinda. Hás-de de concordar que boa parte dos conflitos da humanidade têm que ver com divergências e preceitos religiosos. Que a religião inquinou toda a natural forma de estar entre as pessoas.

           
- Desculpas, José. Se não fosse por isso, era por outra coisa qualquer, porque o que está em causa é uma natural compulsão para o poder, e a ganância. Achámos bonito fazê-los imperfeitos e vê-los a evoluir para a perfeição. E até se dá, sabes? Alguns conseguem. Nunca pensei que a maior parte levasse tanto tempo e desse tanta chatisse! Devia ter previsto um plano B. Mea culpa.

 

- Ha ha! Admites.

           
- Julgas que Me caiem os parentes na lama? De qualquer maneira, isto não sai daqui, até porque tu não vais a lado nenhum, não é?

 

- Mas continuo na minha, já que és tão poderoso, porque não desencantas maneira de pôr cobro a todos estes colossais desmandos?!

           
- Porque já não está na Minha mão, pronto. Aliás, o desassossego e o descalabro são tamanhos, que Eu e os meus não temos mãos a medir. Andamos num virote! Vinte e quatro horas sobre vinte e quatro horas de serviço, dia após dias, ano após ano, décadas, séculos, milénios a ouvir o chamado em inglês, em espanhol, em português, chinês, árabe, hebreu, todas as línguas ao cimo da terra - SOU sempre O mesmo, percebes? "Ai Jesus! Valha-me Deus/Allah/Jeová! Pai Nosso, dá-me isto, dá-me aquilo. Livra-me disto, livra-me aquilo." Um horror! E felizmente há budistas, hinduístas, xintoístas, animistas e até adeptos da concorrência, se não, ainda era pior! Os budistas são do melhor que há, não pedincham e não se queixam. A sorte dos Budas, já viste? Por isso têm aquele ar feliz e repousado. Pudera!

           
- Pois, agora queixa-te. Estás a ver no que deu a mania da omnipotência e da omnipresença?

           
- Olha, a propósito,  tu também só vês o que te convém. Achas que se Eu não consentisse ganhavas algum Nobel e eras famoso?

 

- Para isso, já tudo podes! Por acaso acho que não meteste prego nem estopa no assunto. Ignoraste-me ostensivamente, e quando olhaste, a coisa já se tinha dado. Ora aí tens!

 

- A sério que crês nisso? Pensas que determinaste a tua própria vida inteiramente?

 

- Acho sim senhor. Quer dizer, claro que dependi de muitos juízos e de muitas acções, mas todas elas humanas, nada divinas. E lá porque afinal existes, não penses que mudei de ideias.

- Ateísmo é não acreditar em Deus. Não é confrontá-Lo, desafiá-Lo, contestá-Lo. Aliás, meu caro, na verdade, sempre achei imensa piada ao teu ateísmo. Raros foram os artistas que tanto se Nos dedicaram. Às vezes irritavas-Me um bocado, parecia que Me tratavas como se Eu fosse o dono todo-poderoso de uma multinacional à escala planetária, e tu um sindicalista. Aquela da Bíblia, contudo, foi estupenda. Como é que era... um livro de maus costumes! Olha que de certo modo, até te dou razão, parece que quanto mais a lêem pior ficam.

 

- Não percebeste nada. E, se calhar, já a fazias parar com essa história das letras maiúsculas e do "nós" majestático, não?! O que pretendia dizer era precisamente que deus foi uma invenção muito adequada às más intenções dos malévolos que pretendem o poder, só criou discórdia e conflitos porque foi instrumentalizada para atingir os objectivos das corjas dominantes. Fui ateu, sim. Deus  foi inventado por homens, contra homens. Agora que existes, o caso muda de figura, ou seja, ainda é pior. Existes, e consentes nisto tudo!

           

- Muito bem, era o que Eu queria ouvir. Rematou Jesus, triunfantemente.

(...)

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publicado por Champagne e Miniaturas às 23:52





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