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José (cont.)

Sábado, 27.08.11

- Vais recambiar-me para o Inferno. Isso existe, afinal?

 

- Não. Para quê?! Os que se portam mal são recambiados para a terra e pronto, mais cedo ou mais tarde, fazem-lhes a folha.

 

- E os inocentes? Os desgraçados que são vítimas da cobiça, como o Abel? Também se portaram mal e por isso, fazem-lhes a folha?!

 

- Não é assim tão simples, José, é complicado, alguns até são voluntários para exemplo, mas se queres que te diga, estou sem paciência para pregar.

 

Jesus envolve os ombros de José com um braço, e confidencia: Escuta, estou exausto. Farto disto. Tenho uma proposta para te fazer. Quer dizer, em verdade, não é bem uma proposta, porque não te vou dar alternativa, lamento, é mais... uma tarefa. 

 

- Mau, tipo purgatório?
         
- Deixa lá isso…

 

- Vamos lá a ver então…

           
- Olha, tens aqui o halo, a túnica e as chaves. Toma-me conta disto por um bocadinho. Estás à vontade.

 

- Mas… espera aí? Então...

 

- Desculpa, não há hipótese. Quero ir lá abaixo outra vez, mas desta não me vou por a jeito. Ninguém me apanha. Tu ficas aqui e determinas consoante o que sempre defendeste. Inventas um deus para os bons, outro para os maus, ressuscitas o Abel, tramas o Caim, fazes a vida negra ao Papa, dás cabo de todas as bíblias, ou reescreve-a, revertes o tempo, desinventas o pecado, salvas todos os mártires, castigas todos os tiranos, o que te der na gana.

 

- Não sei se estou para aí virado!

 

- Tens mais alguma coisa para fazer?

 

- Pelos vistos, não… Mas é surreal… É desadequado, não sei que diga.

 

- Não digas nada. Até já.

 

- Espera! Vais deixar-me assim, a pairar sobre Portugal?

 

- Dentro de minutos, estás em toda a parte, Portugal incluído. Fica bem!

 

- Há aqui qualquer coisa que não bate certo. Acho que é uma cilada. Há bocado, disseste-me que não podias reverter os teus desígnios, lá está, estás a oferecer-me um engodo...

 

- Deixa-te disso. Eu não posso alterar os Meus próprios desígnios -tem algum jeito?- mas tu podes, se quiseres. Mais a mais, se Me vou, já não existo, por isso, estás nas tuas sete quintas, à tripa-forra. Que mais podes querer?

 

- Isso não é bem assim, não dizes que és omnipresente? Tanto faz estares aqui, como noutro lado, então, estás em todas as partes. Grande patranha me estás a pregar.

 

- Não estou. É o que pretendo. Delego-te as minhas competências para toda a tua eternidade.


- Para onde é que vais mesmo? Estás contactável?

 

- Claro. Basta pensares em mim. E vou sem destino, é conforme me apetecer.

- Se eu te chamar, vens?

 

- Logo vejo. Até à vista!

 

- Nem sequer me fazes um briefing? Como tencionas acabar com o conflito israelo-árabe, se é que tencionas...? Com o terrorismo? A fome? Qual é a tua posição quanto à sustentabilidade?

 

- Isso agora é contigo, faz o que entenderes.

 

- Isto é de gritos. Mas agora o mundo vai chamar a deus, José, ou Saramago?!

 

- Só se tu quiseres, mas vai por mim. Deixa estar como está. Deus, Allah, Jeová... Eles não notam a diferença e agora és invísivel...

 

- Estou sem palavras!

 

 

Jesus retirou a túnica e, tal como previsível, não havia nada por baixo. Não se confunda o afirmado com qualquer alusão a falta de roupas íntimas ou intenção despudorada, prefigurando um Cristo com as partes à mostra, com sexo e nádegas sequer, tal seria demais, e certamente uma candidatura bem provisionada à excomunhão da escrevente. Incorpóreo, é o que se pretende transmitir. Enfiou-a à trouxe-mouxe pela cabeça de José, que a compôs com relutância, espalmando as mãos no tecido, entre a função de alisar e o embaraço do desconcerto. Com um gesto redondo e grácil, Jesus transpôs o halo para José, e atirou-lhe as chaves enquanto se afastava a passos largos na direcção do infinito.

           
- Espera um bocadinho, diz-me só uma coisa: sabes quem é que ganha o  Nobel da Literatura este ano?

 

- É o Vargas Llosa, responde Jesus, sem se virar.

 

- Estou para ver...

 

Jesus estaca e vira-se a três quartos:

 

- Vais interferir?

 

- Nada disso, seria pulhice aproveitar-me do cargo para tramar um companheiro de letras!

- Ficam-te bem esses sentimentos. Eu te abençoo, diz Jesus, rematando com o gesto ictus.

 

- A ver se acertaste!

 

- A ver vamos. Adeus.

 

- Para que servem as chaves?

 

- Para nada, é só para o estilo, um símbolo: "as portas do céu", por aí.

 

- Mas as chaves não eram com o São Pedro?

 

- Ele tem as dele, não te rales.

 

 - Jesus, não me deixes aqui sozinho! gritou José

 

 - Vês? Até tu... Não te queixes, homem. É a tua oportunidade.

 

 - Mas por que razão, meu deus?!

 

Jesus virou-se uma última vez para trás, sorriu resplandecente, olhou-o complacente, e estendeu na sua direcção a mão omnipotente.

 

- Eu o disse, José: a cada um, o céu que idealizou.

 

FIM

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publicado por Champagne e Miniaturas às 20:31





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