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A CAIXA

Segunda-feira, 29.08.11

A avó arrecadava recortes da vida e da morte de Dom Carlos e da Rainha Dona Amélia numa caixa de sapatos. Não poucas vezes se amofinou por ver recusada  correspondência à repetida ladaínha de pedidos para que a avó retirasse do seu nicho a caixa, com o seu fantasmático conteúdo. Sempre que o pedido era deferido, dedos como pinças pequeninas, seguindo compenetradamente as instruções de manuseamento da curadora do precioso acervo, com que enlevo e fascínio desdobrava as folhas preservadas pela avó,  nascida em 1904. Mistério maior: teria à data do regicídio quatro anos, seis na implantação da República, alguns dos recortes eram muito anteriores a ambas as datas e documentavam actividades sociais, passeios e caçadas da família real. Quatro e seis anos são idades improváveis para que a avó fosse leitora de jornais e de folhetos de cordel.  Ergo, conclui que os recortes foram preservados pelos bisavós, e a avó conservou-os e estimou-os mais que legado de valor orçamentado.

 

Poética notável e desconcertante constatação do óbvio, que em meio século de existência e a mais de quarenta e cinco de memória da primeira visitação a tal espólio, jamais houvesse cruzado a cronologia de modo a topar a incoerência de atribuir a iniciativa à avó, face ao desfasamento das datas. A história da caixa tem mais que se lhe diga, é mais que mera incursão episódica numa mão-cheia de tarecos de estimação da avó. É uma herança de família, que afinal traz água no bico… Famosa entre meia-dúzia de gatos pingados por transportar material clandestino, pois, vendo bem, grande temeridade à época cultuar um cidadão relíquias da monarquia com tal desvelo, no fim da década de setenta a humilde caixa de cartão ainda se segurava à memória do seu próprio embaraço, sempre resguardada em prateleira discreta do armário embutido na parede, barricada por objectos fora de uso, velada à esquerda pelo altar pintado de azul de Nossa Senhora da Conceição, com uma lamparina de azeite aos pés.   

 

Lembrou-se disto tudo logo que o genérico do telefilme "República" começou a desfilar, segurando ainda o fio da meada que começou a dobar desde que se predispôs a assistir à película, entusiasmado pelo curriculum do realizador. Meia dúzia de cenas decorridas, já se sentia do lado dos depostos, na vez do dos vencedores. Culpa da falta de carisma das personagens republicanas insossamente encarnadas por pálidos actores, por oposição ao maior gabarito e competência daqueles a quem calharam figuras monárquicas? Bah, erros de produção capitosos –credo, na sequência da fuga no eléctrico, como se viu o prédio completamente anacrónico! Opção de exploração de épocas sobrepostas pelo lado surreal, não fora o denunciado convencimento de que a rapidez do plano iria deixar escapar a evidência da construção moderna. Contra o que é costume na produção nacional, repreensível caracterização: o heróico combatente republicano passa meio filme com uma escara no pescoço que mais parece uma cultura de estafilococos. Má direcção de actores? Mau casting?... Será isso, só isso, ou a antipatia que sente pelos heróis e heroínas republicanos é reflexo de subliminar ressentimento para com esta mal-fadada república, que nunca correu bem? Parece-lhe que a representação do lado republicano, mais do que artificial e enfatuada, ressuma uma espécie de presunção de capataz onde se reconhece mestria no exercício do pequeno poder. À portuguesa, como o cozido, a calçada e a tourada. Excessivos, acidentados, dramáticos e albardados.



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publicado por Champagne e Miniaturas às 23:49





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