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A CAIXA (cont.)

Quarta-feira, 31.08.11

Manuel pressiona o botão do comando da box e corre a eito umas dezenas de canais excedentários, procurando nos títulos dos programas em exibição, aquele que possa ter algum interesse. Afinal, para que precisa um bípede de aceder a duzentos e tal canais, quando acaba por não passar de espectador assíduo de três ou quatro, meia-dúzia, quando muito?! Curioso pendor para nos deixarmos seduzir com ucharias, no caso, para cima de duas centenas de canais de TV, à uma, embrulhados na factura mensal, pois se fizermos a conta a trinta e nove euros a dividir por duzentos-e-tal-canais, é uma pechincha supimpa! Já trinta e nove euros a multiplicar por... quantos milhões?... Toma uma nota mental para tentar buscar na net quantos utentes tem aquela operadora, que é para a conta sair certa. Há-de dar sainete no Facebook.

Com o Facebook passa-se um fenómeno aparentado, é um vai-vem de gente a propor ser adicionado, é um frenesim de adicionar gente, vai na volta, interagimos diariamente com uma dúzia, se tanto, e, no geral, temos notícias regulares de uma centena, mais coisa, menos coisa, que são, na maioria, aqueles com quem nos damos cá fora. Os demais acabam por ser remetidos à categoria de figurantes que enquadram os protagonistas, e tudo junto na página do perfil é uma autêntica caderneta de cromos. Iça o laptop para o colo e resvala pelo mural a observar à velocidade de queda livre quantos amigos mudaram a foto do perfil, os updates do status de cada um, mais quem faz anos, quem mandou presentes para o Farmville, quantas propostas para o Mafia Wars, convites para eventos onde não faz a menor intenção de por os pés, mas diz que sim para fazer jeito, grupos a que foi adicionado à má-fila, mas condescende em permanecer, resmas de páginas para gostar, corações fofos e beijocas, frivolidades, parvoíces, lamechices, exibições cretinas e egocêntricas, verdadeiros case-studies de marketing pessoal, poses de engate, nacos de prosa surpreendentemente bons, ou patéticos, apelos pungentes, notícias de última hora e em primeira mão, causas, coisas para rir, verdadeiros achados, vídeo-clips a metro. O magnífico mural lembra por vezes um rio em cuja superfície circulam os mais variados e díspares objectos com destino a uma foz imaginária, um delta virtual onde se depositem como sedimentos até entupirem sem apelo, provocando uma inundação de proporções bíblicas. Tudo virtualmente, bem entendido.

 

Um rio… Qual banda sonora, liga-se-lhe na cabeça o fado do Camané "...sei de um rio, sei de um rio..." enquanto a memória o transporta para os dias de piquenique no rio Trancão saloio e transbordante de fauna e flora, nos idos de sessenta, quando excursionava com os pais e os amigos destes, incluindo as flausinas que o pegavam ao colo, de fato de banho inteiro e até depois das virilhas. Invoca sapos, ouriços-caxeiro e passarada avulsa adejando em torno de um fluxo de água revolta que galgava pedregulhos, onde era preciso prospectar minúsculos lagos afogados entre pedras e limos para tomar banho acautelado da corrente, e com vigilância atenta à aparição das cobras de água.

 

Arriscando explorar a vegetação das margens inclinadas, descobriu-se um dia uma nascente de água, onde bebeu. A sequência das fotos a preto e branco do acontecimento ainda existe em parte incerta da casa dos pais. Na década de oitenta, o rio Trancão transfigurou-se num rego de água podre e mal-cheirosa, sem rasto da maioria da bicharada, o que o acabrunha por mais que uma razão, sobretudo a sensação fatalista de que o rio da infância é a representação simbólica do curso da sua própria vida.

(...)

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publicado por Champagne e Miniaturas às 23:00





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