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A CAIXA (cont.)

Quinta-feira, 01.09.11

Com o fado ainda a ressoar-lhe na cabeça, revisita a apresentação de um CD de nóvel fadista a que foi convidado a assistir, ao fim da tarde, no Martinho da Arcada. O apresentador, o marido da fadista, fez a festa, atirou os foguetes, fez moinhos com as canas, e terá porventura planeado vendê-los... Enfim, irritante tipo o dos maridos que tomam conta das carreiras artísticas das esposas. Todos se parecem, não pelos traços fisionómicos, bem entendido, mas pelo exercício de uma fórmula funcional que lhes assenta como uma gosma, conferindo-lhes uma dinâmica postural comum. Deixam-nos a braços com a intrigada reflexão sobre o que terão visto neles as artistas, para assim colocarem nas mãos e no resto deles, tudo o que lhes respeita a elas. Anunciam a produção delas como "nossa", têm sempre um olho no burro, outro no cigano, como quem não quer a coisa, ou seja, ao mesmo tempo que trauteiam a canção que elas cantam, batem palmas a compasso e ritmos com o pé no chão, relanceiam para a expressão dos circunstantes, perscrutando entre a assistência a cara daqueles a quem interessa cair nas boas graças, exalando sorridente formato de intimidação sobre a geral, que se vê em palpos de aranha para atinar com a reacção almejada. Imbuídos de fanatismo derriçado, comprometem a credibilidade das mulheres com os ademanes, o ar de donas de casa de antanho recebendo os convidados em representação da cara-metade, em resumo, uma peganhenta mistura de atamancados business men com pavoneados anfitriões da festa.

Festa, produto de mais uma fórmula nacionalizada: de maneiras que fizemos assim-assim, desculpem qualquer coisinha, muito obrigadinhos por terem vindo, não levem a mal, alem de grávida, a cantora está afónica... risinhos... espero que gostem. Isto tudo dito numa mescla de tonalidades canhestras de quem se revê impante dono da última coca-cola no deserto, mas não quer dizer. Os esposos partilham com os presentes algum episódio da vida doméstica, rematado por um amigo convocado para a contracena. Conversa de quintal, que é preciso aconchegar com sorrisos, de tal modo constrange o eventual desamparo de quem com tamanha candura se permite fazer tais figuras. Algo engenhado em formato de tertúlia, que se deixou comprometer pelos entrefolhos da combinação a assomar por debaixo da saia. Tudo colado com cuspo, como o painel de fotos com que decidiram cobrir um dos espelhos, que a meio da cantoria achou por bem precipitar-se por ele abaixo, pondo em alvoroço a mesa dos vips cita na sua dianteira, impelindo os mais remexidos a lançarem-se ao painel de mãos espalmadas, compensando à força de pressão, a falta de aderência. E nem eram maus, os fados, a fadista idem, os músicos tocavam bem e os poemas eram de Pessoa... A rir-se no além como ele riu para dentro, e, se calhar, a pensar no mesmo: Portugal pode ser isto, um belo naco de fado, servido à trouxe-mouxe. Mas come-se!

 

Foi até à cozinha, em estado de sítio desde que a mulher-a-dias deixou de estar pelos ajustes de receber tarde e más horas. Conseguiu desencantar uma faca razoavelmente limpa, que aprimorou com uma rápida esfregadela na esponja igualzinha às scotch-brite, vendida em lote de três por tuta-e-meia na loja dos chineses da esquina. Se bem que as lojas dos chineses já venderam mais barato, às vezes não compensa, chega-se a casa e descobre-se que as pilhas estão descarregadas ou o artigo tem defeito, vai lá tentar-se trocar e é o cabo dos trabalhos, com os chineses a titubearem um português infestado de LL, e a gente a ver-se gregos para se explicar. Pelo andar da carruagem, iríamos bem se aprendessemos chinês, ou melhor dizendo, mandarim, mas faz impressão porque rima com pudim: quatro saquetas dentro de uma caixinha minúscula azul-escura com letras amarelo-canário, exibindo a estampa de um velho de chapéu cónico, repas de bigodes e barbicha branca, a segurar como se de um luxo asiático se tratasse, um pudim flan dentro de um prato. Quando era miúdo pelava-se por ele, acomodado em forminhas, ou em fatias esculpidas, assente sobre uma camada de açúcar caramelizado.

 

Abriu o frigorífico, torcendo o nariz ao cheiro indiciador de que algo se encontra em processo de mutação biológica no seu interior, retirou manteiga fácil de barrar e com menos trinta por cento de gordura, em prol do colesterol, a caixa do fiambre ainda consumível, só um bocadinho a esverdear na terminação, o que se resolve já com a faquinha da manteiga, e fica como novo. Retira do pacote de plástico duas fatias de pão bimbo e produz uma sandes, que acompanha com uma superbock de lata. A caminho do sofá, atende a namorada arreliada com coisas da vida, basicamente, desmandos do ex-marido com respeito aos filhos, coloca os phones, e passa uma bela meia-hora a enchê-la de fofinha, palavras doces e consolo com a boca cheia, enquanto tecla com dois dedos da mão direita, manifestando o gosto nos posts dos amigos faceboquianos, regozijando-se por ambos terem aderido à tarifa stravaganza, mesmo antes de desligar com muitos beijinhos.


Regressa à viagem de ida-e-volta entre os duzentos-e-troca-o-passo canais da box, e a internet. Passa pelos mails e descobre que alguém pode estar à beira de lhe encomendar um trabalho. Alvoroçado, responde imediatamente, apesar do adiantado da hora e de haver fracas hipóteses de o potencial cliente ainda se encontrar a pé. De qualquer maneira, não tenciona levantar-se antes das onze, portanto, caso o cliente seja madrugador, já fica aviado. Vai do outlook para o blog, mas quando lá chega, faz uma pausa para retomar o comando da box à procura de um canal de música que não interfira com a navegação, e é assaltado pela lembrança da caixa. Pena não dar jeito falar da caixa no blog todo dedicado a gadgets, que são a menina dos seus olhos. Só se abrir um blog para falar de coisas como a caixa, mas tem medo de não ter mais assunto relacionável, e que o blog seja um flop.

(...)


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publicado por Champagne e Miniaturas às 22:07





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