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A CAIXA (cont.)

Sexta-feira, 02.09.11

Mas afinal, que é feito da caixa da avó...? Manuel dá tratos à cabeça, tentando reconstituir o destino da caixa após a morte da avó, vai para vinte anos. Caramba, tarda nada, estou à beira de me transformar na personagem do Süskind que viu a vida de pantanas por causa de uma cagadela de pombo! Que se lixe a caixa! Olha de soslaio o volumezinho de correspondência alinhada sobre a secretária, no meio de um caos de coisas desirmanadas que vão do rato do Mac, até ao caroço da maçã que roeu ao levantar, a título de pequeno-almoço. Dispõe-se a analisar o conteúdo, consabidamente contas. Olha, boa, aviso de corte da electricidade. Quantos dias tenho para desencantar cento de dois euros e noventa e cinco cêntimos?... Pois, a ver vamos... Quando não é a luz, é o gás, quando não é o gás é a internet. Mas sem luz, também não há internet, nem água quente. Porra, dilema do caraças!

 

 

No tempo de el-rei Dom Carlos, Portugal estava na banca-rota. Esta frase sucede-lhe como se lhe tivesse sido vertida clandestinamente através de um orifício qualquer não rastreado. El-Rei, por que carga d'água?! De onde lhe vem agora este léxico? Republicano por inerência, ele há coisas que nem vale a pena perder tempo com elas, isto é uma república há cem anos. A cabeça de Manuel turva-se com a poalha acumulada de meio século de reconhecimentos avulsos de história recente, entre os quais sobressaiem o salazarismo e o 25 de Abril. Sucederam-lhe os dois, o primeiro passou-lhe ao lado, o segundo acertou-lhe em cheio, púbere, retendo a vaga ideia de que antes algo tóxico empestava permanentemente o ar. Lembra a mãe a precipitar-se para a janelas da sala em pleno Verão, sibilando um alarmado "fala mais baixo, olha que se ouve lá fora!", enquanto o pai argumentava em solilóquio para o chefe do estado, a praticar conversas em família a preto e branco no ecrã do televisor. Mais a mais, nunca chegou a distinguir ao certo quais das conversas eram sobre sexo, ou coisas relacionadas com frases escritas nas paredes, à trincha e à pressa. Sempre que a mãe cortava a palavra ao pai “cuidado com o miúdo!” ficava a meio caminho entre achar-se poderoso o bastante para ser temido se ouvisse certas e determinadas conversas, e indignado pelo sonegar sistemático das chaves dos segredos. Com cinco anos, caminhava pela rua pela mão da mãe quando, ávido de exibir a precocidade, juntou sincopadamente, mas alto e bom som, as letras escritas numa parede: "LI-BER-TEM-A-LEX!". A mãe aplicou-lhe o método do rápido apertão no metatarso e, entredentes, atingiu-o com a mais recorrente das palavras da sua infância, "cala-te!". A frase não lhe saiu da cabeça durante semanas e, a bem dizer, ficou para sempre, apesar de após o 25 de Abril ter finalmente resolvido o enigma. Também ficou para depois a revelação da intrigante palidez do pai ao chegar a casa num dia em que fez qualquer coisa desacostumada, acalentado pelos murmúrios tranquilizadores da mãe "mas como queres que saibam?!". O pai tinha votado Humberto Delgado e vinha cheio de medo que descobrissem, coitado. Escapa-se à polícia, mas não se passa incólume ao medo. Resolvido também o mistério do sorriso indisfarçado do senhor da mesa ao lado, a responder tonitruantemente "já, já!", no restaurante onde almoçavam em Sesimbra, quando, estranhando a bandeira a meia-haste no quartel em frente, o pai comentou para a mãe à boca -muito- pequena "não me digas que já morreu?"

 

Salazar era o nome do raspador de borracha que deixava rastos de coisa doce no fundo da tigela de bater os bolos, e fazia-lhe muita espécie a cara de caso com que as mulheres da casa o diziam, e pior, quando ele referia o objecto pelo mesmo nome, a mãe ralhava a rir "chiuuu, isso não se diz!"
O mundo dos adultos era uma floresta de enganos cheia de carreiros que iam a lugar nenhum.

 

Manuel recosta a nuca no sofá e mira o tecto, como se procurasse ver nele um mapa. Vê melhor se fechar os olhos, volta atrás mais facilmente, mas não vislumbra com clareza para além do ponto em que deixou de ser alguém inteiro, para ser facultativamente desempregado, ou freelance. O ponto onde tudo começou não é maior nem mais significante que uma cagadela de pombo, mas desde então, parece que todos os pombos de Lisboa determinaram que haveriam de lhe cagar em cima. E quem ficou com a minha caixa, afinal? Parece que parte substancial da sua história anda ausente em parte incerta, como os recortes dos últimos suspiros da monarquia, que haveria de ter herdado.

 

 

Dá a impressão que muitos de nós temos um piquinho a azedo em relação à monarquia, pelo menos por este penúltimo rei, martirizado mais por inércia e incompetência que pelo mal-enjorcado atentado-suicida. Bem conhecia os riscos e vai por-se a andar de charrete, e o canalha do João Franco que não providenciou escolta policial de jeito! Este inconfesso e inusitado enlevo por Dom Carlos, é coisa para derivar do mesmo sítio de onde nos sobreveio o sebastianismo, esse depósito de esperança nostálgica e rançosa em alguém que venha por cobro a todos os imbróglios. O anseio português mais depressa olha para trás, que enfoca no porvir. Falta de líderes, diz-se. É impressão minha, ou temos tido líderes em barda?! Ou serão antes capatazes, a famosa especialidade da casa? O que nos faz falta é mirar o exemplo, mas os melhores promovem-se mal, têm pouco mediatismo... Escusávamos de estar sempre desertinhos de ter quem nos diga o que é bom para a tosse, de nos pormos a jeito de qualquer ungido com um olho só, unhas e dinheiro para a guitarra, predisposto a cumprir mal e porcamente o papel de sempiterno salvador da pátria, sobre cuja cabeça se erga a aura do Pastor, e, por contraponto, sirva às mil maravilhas para se lhe destilar em cima uma caterva de recriminações, infelizmente, quase sempre mais que justas, o que não quer dizer que a relação não esteja logo inquinada à partida pelo vício de delegar o afadistado destino nas mãos de outrém, recoberto com a arte de limpar a água do capote. Posto isto, é a contínua logomaquia entre "eles" e "nós". Há qualquer coisa de perverso nesta eterna cisma com “eles”. “Eles”, são os que mandam. A culpa é sempre toda “deles”. Como se eles fossem selenitas, ou invulneráveis por artes de berliques e berloques.  Afinal de contas, não é preciso ser grande, para pensar grande coisa.

(...)

 

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publicado por Champagne e Miniaturas às 23:26





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