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A CAIXA (cont.)

Sábado, 03.09.11

À noite é mais fácil viver. Do despertar tardio até ao jantar amanhado por si ou no sofrível restaurante à porta de casa, onde fazem fiado, o ânimo aumenta por razões inexplicáveis mantendo-se estacionário, quer dizer, bom, até altas horas da madrugada, altura em que se rende à evidência do sono, menos por o sentir, do que pela compulsão de cumprir uma sequência de acções normais no dia de uma pessoa comum. Apesar de quase sempre dormir uma involuntária soneca no sofá da sala, adia o mais possível o momento de ir para a cama, só para prolongar a estada na disposição menos má, que, na verdade, é bem capaz de ser nada menos, nada mais, que o resultado do efeito dos vários comprimidos tomados desde manhã, adubados com uma racionada dose de jameson. Ou quem sabe, uma gratidão instintiva, e com hábitos noctívagos, por ter vivido mais um dia.

Desde a falência da pequena empresa de publicidade que detinha, a sua vida tem dependido de uma sucessão de medidas recursivas e expedientes. Vender o andar maior para comprar um mais pequeno, pedir um pequeno empréstimo ao banco por conta do andar pequeno, pagar umas dívidas às finanças, outras a antigos fornecedores, investir algum num carro de qualidade sofrível. Vender o carro e comprar um chaço em segunda mão, pagar a prestação do pequeno empréstimo ao banco, pagar as contas, e comer.

 

E quem ficou com a minha caixa, afinal? Ou será que pura e simplesmente lhe deram sumiço, jogaram-na no latão do lixo da primeira esquina, sem delongas? Como fui consentir ser despojado desta maneira?


 

Ir para outro lugar é uma opção. Tantos de nós já o fizeram. Vêem-se em palpos de aranha para se desençarilharem das peias que se levantam sempre em torno de um qualquer visionário, regra geral assenta o aforismo “depois do burro morto, cevada ao rabo”, e muitos optam pela abalada. A Maria João Pires, o José Saramago, a Paula Rego, o Júlio Pomar são do melhorzinho que há por exemplo de como neste país os nossos melhores, podendo, põem-se a andar daqui para fora a sete pés. Um país que não protege nem fomenta a cultura, não cultua o seus criadores, é um país menor, não por ser pequeno, mas por recusar crescer.

Manuel divaga pelos incipientes planos de se instalar, ora no Maputo, ora em Los Angeles, e acende o trigésimo cigarro, renovando pela enésima vez a intenção de reduzir no tabaco, isto assim não se aguenta, já custam mais de quatro euros! Claro que em casa fuma à ganância, não se pode fumar em sítio nenhum, quer dizer, ele faz questão de só ir a cafés, restaurantes e bares onde haja espaço para fumadores. O problema é que os lugares para fumadores estão sempre à cunha, para gáudio da tabaqueira. Se for para Los Angeles, o melhor é deixar-me disto de vez, a histeria anti-tabágica é repositório de todos os mal resolvidos chauvinismos norte-americanos. África é outra conversa, têm mais com que se ralar do que com os malefícios do tabaco para os fumadores activos e passivos.

 

Angola é um país florescente, com uma economia em ascensão, quer dizer, há lá gente podre de rica por contraste com os que apodrecem nos confins dos bairros de lata. Deve fazer muita diferença a quem vive à míngua dever a miséria a brancos ou pretos. No fim das contas, é sempre a vã glória de mandar e a cobiça. Lembra-se da vez em que a antepenúltima namorada comentou ter presenciado no cabeleireiro a esposa de um funcionário do governo angolano a gastar mais de mil euros em extensões capilares, para fazer surpresa ao marido no dia dos namorados. Faltou saber se ia em voo normal, ou especialmente fretado para a ocasião. Soubesse o povo angolano a quanto monta a queca de um alto funcionário do estado! Ouviu algures que só em Luanda há quatro mil orfãos a viverem na rua e viu na TV um missionário estrangeiro a levar a peito a sua salvação, juntamente com uma mãe angolana de cinco filhos, que acolhia miúdos da rua. Revê a extrema dignidade com que essa mãe efabulava, num português sem ornamentos, mas escorreito. Até se comoveu a óbvia evolução interior da mulher. Parece que os dirigentes de Angola retiveram o pior da escola colonialista, implementando um grande upgrade na corrupção, e na ganância com que agora abicham empresas portuguesas. Florescente, mas truculenta economia, não foram poucos os que recentemente foram de peito feito e voltaram depenados, quando o corrupto funcionário que os protegeu no empreendimento extrapolou as contrapartidas, ou lhes aplicou o golpe.  Moçambique é menos feroz a nível da corrupção, mas a morosidade dos trâmites acaba por ser dissuassora, quando não impeditiva. Mesmo assim, notam-se movimentações na direcção desses países, encabeçadas pelos que lá nasceram ou cresceram, cuja ligação afectiva e visceral jamais se quebrou.

 

Projectos de diáspora que conciliam antípodas, tal a vontade de se por ao fresco. A fuga para a frente é o último recurso daqueles a quem o mundo foge no seu lugar. Aqui parece que nos caíu um manto pardo em cima da cabeça. Andamos como almas penadas num limbo, parece que morremos e ainda não nos disseram. Ou será o contrário, passam a vida a dizer-nos de variadas maneiras que já morremos, e andamos todos de luto interior por hábito? Rai’s partam, ficámos todos danados quando o Iggy Pop disse que não gostava de Portugal porque as portuguesas andavam todas vestidas de preto… mas foi costume, hoje em dia é que só andamos de preto pelo nosso avesso. Será que o Almada tinha razão quando afirmou que a missão da república portuguesa já estava cumprida antes do 5 de Outubro: mostrar a decadência da raça? Mas, lá está, dar rodas de decadente à raça implica que já fomos o contrário de decadentes, quer dizer, progressivos. Fomos. Portanto, até o nosso Almada nos colocou viradinhos para o passado, como um miúdo de castigo na sala de aula, mas dá que pensar quanto do ultimatum futurista às gerações portuguesas do século XX se poderia reaplicar, com a adição apenas de um I.

(...)


 

 

 

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publicado por Champagne e Miniaturas às 22:42





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