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A CAIXA (cont.)

Terça-feira, 06.09.11

Esta tarde no café, pedi à miúda uma queijada de amêndoa e um sumol de laranja. À segunda confirmação, esta estendeu a pinça dos bolos para o tabuleiro das queijadas. Virou a queijada que seleccionou para verificar no verso do embrulho se era de amêndoa, e serviu-ma num pires, juntamente com o refrigerante. Quando a trinquei, era de ananás. Menina, desculpe, mas pedi de amêndoa. Esta é de ananás. Ah! Mas estava no sítio das de amêndoa! ...Mas é de ananás, repliquei. Não gosta? Nem por isso, tá a ver, sumol de laranja, nem sequer é de ananás, prefiro amêndoa. Foi revirar todas as queijadas, enquanto se explicava: sabe, elas têm escrito aqui atrás do que são, e essa está mesmo no sítio das de amêndoa. Rematou com a pinça entreaberta e suspensa dos dedos em ângulo obtuso: afinal, já não temos de amêndoa. Puseram as de ananás no sítio das de amêndoa, porque já se acabaram as de amêndoa.

 

Manuel ficou suspenso na pontuação impressa no rosto da rapariga: um ponto de interrogação em cada olho, um ponto de exclamação no lugar do nariz, e a boca, toda ela reticente, que ao todo só queria dizer que-quer-que-faça? Apatia, confusão e enfado. Pensou que o pior de tudo é não haver como pensar. Está escrito na parte de trás do embrulho, “Amêndoa” ou “Ananás”. A de amêndoa e A de ananás. A coincidência e o imprevisto é que comprometeram o método! Tivesse ele o software necessário para descodificar como é possível não apanhar uma palavra inteira ao primeiro vislumbre.
Antes da queijada, ao sentar-se, a mesa estava repleta de louça usada pelo cliente anterior. A rapariga apareceu com uma bandeja, manifestamente pequena demais para o volume de louça. Avaliou, deu meia-volta e foi buscar uma bandeja maior. Logo aí, Manuel tinha pensado mas por que carga de água não toma nota do pedido, leva alguma louça, depois traz o que pedir, e leva o resto?!

Vem para a rua a pensar que com metade dos empregados melhor pagos e com maior qualificação, o dono do café concerteza facturava mais. A queijada de ananás que acabou por se sujeitar a comer, soube-lhe a amêndoa amarga.

 

Quando era puto, uma vez aconteceu-lhe uma situação hilariante com a mãe de uma das primeiras namoraditas. Foram todos três lanchar na Mexicana. A mãe, de uma possidonice antológica, tentava parecer o que era óbvio para toda a gente que não era e, quanto mais se esmerava mais se afastava do objectivo, produzindo um ror de situações basculantes entre comicidade e constrangimento. Ao empregado mais carismático da Mexicana naquele tempo, a miudagem do eixo Filipa de Lencastre-Instituto Superior Técnico chamava Chouriço de Sangue, devido ao escanzelado e vermelhusco pescoço que lhe saía impertigadamente do casaco branco da farda. Vem o Chouriço de Sangue de bloco e caneta em punho e irrepreensivelmente pergunta, dirigindo-se em primeiro lugar à decana da mesa: Vossa Excelência deseja? Um “palmiére” e um capilé. Simples, ou coberto? Como é que é isso, coberto? Minha senhora, é com ovo e açúcar batidos.  Ai credo, não gosto de capilé assim! Teve que bater em retirada para a casa de banho, onde se desmanchou a rir,  e permaneceu durante largos minutos a reconstituir compostura. Pescoço caricatural, ou não, ia-se a um café e era-se atendido como deve ser, essa é que é essa.

 

Se o Eça cá viesse, esgotava a palavra choldra em menos de um ai, aliás, o mais certo era faltarem-lhe palavras por excesso de assunto. Mete muito respeito verificar que  Eça, Camilo e Almada comentaram e descreveram tipos sócio-culturais com correspondências assertivas à actualidade. Visto assim retrospectivamente, dá gerações a produzirem gerações de clones sem vontade, sem ânimo e sem fulgor. Mas medo, muito medo, para dar e vender. Logo haveríamos de ter fartura de uma coisa que não serve senão para atrofiar, nem dá para exportar nem nada metido em garrafinhas com rolha de cortiça, pelo menos enquanto a UE não lhe der na vineta chumbar as rolhas de cortiça, como os galheteiros e a tripa dos chouriços. Imagine-se estes senhores da Europa que trabalham nos departamentos onde legislam sobre galheteiros,  a enfardar chouriços e a agoniarem-se todos com a tripa. Um caso sério!

 

Apesar do torpor que começa a tomar conta de si, Manuel procura no google D. Carlos I. Depois, monarquia em Portugal. Depois, República em Portugal. De repente, encontra a caixa, toda ela resplendor, tal qual uma aparição. Fremente, como se fosse Natal e desembrulhasse o presente mais desejado, retira-lhe a tampa com vagares de amante libertino. Começa a extraír do seu interior as imagens extraviadas, relendo os textos escritos com pês e agás em sítios onde há já muito foram extintos. A língua vai-se estreitando, simplifica-se cada vez mais, como se ao pensamento cada vez bastasse menos. Agrada-lhe o requinte da complexidade caligraphica, do mesmo modo que certos luxos o confortam, como comer peixe com a faca e o garfo do peixe, usar guardanapos de tecido, ver uma mesa bem posta com os copos alinhados como deve ser. É numa dessas mesas que afinal está sentado, um tanto aturdido com a profusão de iguarias e vinhos. Sempre que tenta por comida no prato, contudo, ela paira e flutua acabando por se dissolver no ar.  À roda da mesa estão as flausinas da sua infância, todas de fato de banho, em grande algazarra de gritinhos e risos. Fazem tchin-tchin e tilintam os copos, mas falha rotundamente a tentativa de lhes saltar para o colo. Falta-lhe peso, flutua como um balão indirigível, erra a pontaria portanto, e mesmo quando se ajusta, não encaixa. Num canto, um televisor vintage exibe a mira técnica da RTP, afinal, nada menos que um puzzle à picasso das caras do Marcelo Caetano e do Salazar, com uma orelha do Cavaco, salvo erro. Os recortes animados saem por si mesmos do interior da caixa da avó ao centro da mesa como uma terrina de papelão, pairam no ar como se não houvesse gravidade, como se estivessem na superfície da Lua. Ele mesmo começa a sentir-se cada vez mais inefável, a mão que estende move-se em câmara lenta, e, com ela, tenta abocanhar cada recorte como um cão de guarda que agrupa ovelhas para as recolher ao interior da caixa aparecida. Debalde. Os recortes ganham vontade própria, ou impele-os outra vontade. Desmultiplicados aos milhares volteiam no ar como papagaios sem fio e o salão parece-se cada vez mais com uma cena em tons de sépia no refeitório da escola do Harry Potter. Eis senão quando, aparece uma imensa bandeja voadora, que a princípio lembra um ovni. No centro da bandeja está a miúda do café, toda nua, claro e com A tatuado na testa, a matar com o piercing encravado no umbigo. Cheia de medo de cair, enclavinha as mãos nos bordos da bandeja e derrama sobre a mesa uma miríade de queijadas de amêndoa, a que Manuel se lança predatoriamente, devorando sem mastigar todas as que a boca consegue comportar.

 

No melhor da festa soa uma voz em off: Sua Majestade, El-Rei de Portugal!

Entra uma charrete e lá dentro, Dom Carlos I de Portugal, acena-lhe majestaticamente, empunhando um recorte adejante. A turba dos comensais divide-se entre aclamações e apupos, as flausinas dão mais gritinhos ainda, a miúda da bandeja faz loops em jeito de parada aérea. Instala-se a confusão, os cavalos empertigam-se e Dom Carlos toma conta das rédeas por suas próprias mãos, para comoção da assistência. Foi atingido por uma queijada de ananás, vinda não se sabe bem de onde.

FIM
 

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publicado por Champagne e Miniaturas às 22:36





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