Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]



A CANDIDATURA

Segunda-feira, 10.10.11

 

 

Três dias depois, deu por concluída a exposição detalhada em vários capítulos, escrupulosamente transcritos a dois espaços e em times new roman, conforme as instruções, e rematados por uma folha de excel onde se perfilavam no sentido vertical e descendente os números detalhados item a item do requerido orçamento, anexo. Verificou a correcção da ortografia -ainda discordante- palavra por palavra, releu cada parágrafo certificando-se que cada frase soava de modo escorreito e eficaz.

Agrupou os dez curriculuns indispensáveis, mais as declarações exigidas e o formulário preenchido. Juntou tudo num ficheiro zip. Passou o ficheiro zip para a pen, pegou na mala e no guarda-chuva e saíu à rua dirigindo-se à loja de fotocópias mais próxima, a 100 metros de casa, aproximadamente. Fez imprimir as folhas, verificou a qualidade de  impressão, alinhou-as sequencialmente, pediu que encadernassem com cartolina preta na contraface,  mica transparente na face. Pagou. Dirigiu-se ao Instituto, contente por ter logrado terminar com margem confortável em termos horários, embora fosse o último dia do prazo indicado para entrega do projecto. Infelizmente, a informação sobre a concessão de subsídio estava tão discretamente mencionada no site oficial da instituição, que apenas deu por ela três dias antes do prazo para apresentação de candidaturas terminar. Eram 15H00 e os serviços do Instituto encerravam às 17H00. Franqueou a porta de entrada e perguntou ao segurança se era ali que deveria entregar o projecto. O segurança,  muito sorridente e amável, teve dúvidas, ligou para a extensão do departamento apropriado, pedindo confirmação. O segurança
informou-a que deveria dirigir-se ao outro edifício, dois quarteirões abaixo, pois aí é que era o local indicado para a entrega dos papéis. Agradeceu sorrindo de volta, e encaminhou-se para o edifício sito dois quarteirões abaixo. À entrada, explicou à recepcionista e ao segurança ao que vinha,  pediram-lhe uma identificação, tomaram nota do seu nome e indicaram que deveria subir o lance de escada imediatamente à direita até ao primeiro andar, e aguardar que chamassem pelo seu nome. Nessa altura, deveria apanhar o elevador para o segundo andar, onde seria recebida pela funcionária encarregue de receber as candidaturas. Assim fez. Resolveu esperar de pé, pois estava em crer, uma vez que não estava lá mais ninguém, que pouco demoraria até ser chamada. Dez minutos depois, resolveu sentar-se num dos sofás de veludo rubro. Folheou distraidamente algumas revistas, verificou se tinha mensagens no telemóvel. Aproveitou para mandar um sms ao namorado. Leu o sms de resposta do namorado. Aproveitou para fazer uma chamada. Recebeu uma chamada. Ao fim de vinte minutos perguntou ao segurança se estava tudo bem. O segurança ligou para a extensão do respectivo departamento e pelos jeitos da conversa, percebeu que se tinham esquecido de si. Pressurosamente, o segurança encaminhou-a até ao elevador. Foi recebida no hall de entrada por uma senhora extremamente simpática, diante de outras pessoas com pinta de importantes, que aguardavam não se sabe bem o quê. A senhora simpática folheou o projecto, perguntou se tinha o orçamento. Apontou-lho. A senhora simpática achou bem. Depois, a senhora simpática, perguntou-lhe se sabia qual o seu número de associada. Ela não tinha. Não era associada. A senhora simpática olhou-a com comiseração e disse-lhe muito amigavelmente que apenas associados da instituição poderiam candidatar-se.  Não se lembrava de ter visto essa indicação, mas a senhora era tão simpática e teve tanto medo de borrar a pintura, que nem insistiu. A senhora simpática sugeriu que se tornasse associada. Mas, entretanto, o serviço onde se tratava dos processos de adesão já estava encerrado. Só na segunda-feira, uma vez que era sexta. Mas o prazo de entrega das candidaturas termina hoje… balbuciou. A senhora simpática, ficou mais simpática ainda e retorquiu, mas pode voltar a candidatar-se em Janeiro. Em Julho já se sabem os resultados. Estamos em Outubro, comentou. Muito obrigada.

Já na rua, em aturdido monólogo interior em que se descompunha pelo zelo colocado na elaboração do projecto tendo-lhe escapado o detalhe que o pôs em águas de bacalhau,  foi atravessada de orelha a orelha por um dardo, que era o som de um apito incrivelmente estrídulo e cada vez mais próximo. Assarapantada, pois nem o local, nem qualquer circunstância minimamente se adequavam a tal desaforo, acabou por vislumbrar a figura produtora do barulho, que percorria o passeio em sentido contrário ao seu. A ninguém passava despercebido, todos relanceavam e não poucos ficavam boquiabertos e especados. Era uma verdadeira aparição extraída de uma dimensão paralela. Não fora a expressão dos demais transeuntes e convencer-se-ia de estar a ter a visão do espectro de um marinheiro enlouquecido, cuja alma danada tivesse sido condenada a deambular em terra por toda a eternidade. O homem, sujo, pele tisnada e cabelo hirsuto calçava uma botas da tropa sem atacadores e usava uns calções até ao joelho. Brandia um pau e segurava um apito entre os lábios que soprava sem cessar, como árbitro louco num jogo digno de integrar o enredo de Alice no País das Maravilhas, enquanto descia a rua na direcção de coisa nenhuma.


Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado por Champagne e Miniaturas às 23:43





pesquisar

Pesquisar no Blog  

calendário

Outubro 2011

D S T Q Q S S
1
2345678
9101112131415
16171819202122
23242526272829
3031

arquivos

2011