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Champagne e Miniaturas

Sexta-feira, 12.08.11

A mulher sentou-se ao meu lado, afirmativa. A princípio, mal dei por ela. Continuei a inspeccionar o mail box do iPhone, tentando adiantar serviço antes de chegar ao escritório, mais que não fosse, desbastando as mensagens do Facebook, uma verdadeira praga pois não há ocorrência de que a coisa não dê fé, debitando um sem-fim de mails que informam pressurosamente do que é suposto sabermos sobre a mais subtil das acções perpetradas pelos nossos amigos, conhecidos e produtos afins. Aquilo pisa a fronteira da espionagem e o eflúvio de mails e notificações é um fartar de informação boa para coisa nenhuma, que enxameia.

 

Cedo me apercebi que a mulher falava sozinha-mas-para-mim, um clássico de solitários urbanos. Na extremidade oposta da âncora social, nas aldeias, lugarejos, bairros castiços e por aí fora, as pessoas entabulam conversa com os forasteiros, exercitando uma das mais atávicas compulsões: satisfazer a curiosidade. Nos transportes públicos urbanos viaja o auditório incauto dos sós e sendo o Metro consabidamente recinto propício a contacto invasivo corpo-a-corpo, presta-se de igual modo a perturbadores avanços comunicativos. Porém, grande parte das vezes, a conversa só percorre um sentido e o emissor lega mais do que recebe: partilha a esmo, a troco da ilusão de haver alguém atento.

 

Acontece-me ser surpreendida pela extrema lucidez de afirmações proferidas por dementes. Haverá um ponto convergente da lucidez com a loucura onde são produzidas excepcionais asserções. Os loucos de Lisboa proliferam, deambulando pelas ruas da cidade, pelas estações de Metro, e disparam frases sem apontar, que se alojam nuns poucos e passam de raspão na maioria. Divagando em torno destes efeitos colaterais da sociedade urbana, recordo invariavelmente a "Loucura da Normalidade", de Arno Grüen, revelação quase mística que me aconteceu quando estava grávida e me desafogava à hora de almoço na livraria portas-meias com o escritório onde então trabalhava.


Estes loucos perderam o juízo, ou passaram incólumes à inoculação dos sentimentos postiços?

 

Regra geral, não há maluco que não engrace comigo, e vice-versa. Aos três anos, quando passava pela Avenida do Brasil pela mão da mãe, empreendi uma fuga na direcção do Júlio de Matos, ao tempo ainda um espectáculo degradante de doentes andrajosos que se arrastavam erraticamente pelo perímetro externo do edifício, diante dos portões, ou estendendo a mão à caridade por entre as grades. Pois achei por bem cumprimentá-los e fui distribuindo passou-bens por todos perante o pânico semi-emudecido da mãe que me chamava entredentes para não os desestabilizar, com visões apocalípticas de ataques à minha minorca pessoa. A coisa já vem de trás, portanto. Das duas, uma: ou passei ao lado de uma carreira em psiquiatria, ou fui psiquiatra noutra encarnação. Há que admitir, contudo, um potencial segundo binómio: fui demente noutra encarnação, ou ando a habilitar-me a maluca. Certo é que gozo de particular correspondência da parte de pessoas mentalmente débeis.

 

Desta vez não estava para aí virada e fui-me fazendo de distraída, cada vez mais fingidamente enfronhada no iPhone, esfregando o dedo no famoso gadget, intentando escapar à eminência do monólogo secante, a que corresponderia com alguns meio-sorrisos, aquiescendo com vaguíssimos acenos de cabeça. A mulher foi debitando um discurso que não creditei, sequer ouvi. Pincelava-o com uma paleta de expressões que iam da ironia chocarreira ao mais puro desdém, encaixilhadas em subtis gestos dos ombros e das mãos.

(cont.)

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publicado por Champagne e Miniaturas às 16:52





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