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Champagne e Miniaturas (cont.)

Sábado, 13.08.11

Era uma mulher entrada nos sessenta, vestida com muito bom gosto, sem espalhafato nem banalidade. Gabei interiormente alguns detalhes, como a sábia combinação de cores que apenas um olhar treinado no sentido artístico poderia ser capaz de produzir, a arriscada mas absolutamente precisa selecção de tecidos e alturas. Lembrei-me de ter ouvido uma vez que o pandam foi inventado para mulheres incapazes de combinar cores contrastantes e elementos díspares, por falta de imaginação e por medo do julgamento alheio. Com todas as peças encaixadas e a condizer, está garantida a ordem e, portanto, tudo sob controle. Não há risco. A roupa da mulher demonstra criatividade e pertinaz rebeldia, não tem marcas óbvias, mas é de qualidade evidente. Nessa manhã, pintou a boca de vermelho vivo com precisão, rematando a maquilhagem em tudo o mais discreta e bem aplicada.

 
Acordou com uma ideia de véspera,  contraída ao fim da tarde na conhecida galeria durante a vernissage de um ascendente pintor, ente rostos recorrentes, saudações comuns, conversas circunstanciais e a visitação das obras expostas, muito jeitosas, por sinal, mas entre os valores impossíveis e uma espécie de saciedade estética a razar o fastio, não pensou sequer na hipótese de cobiçar alguma. A ideia, essa, irá acompanhá-la durante todo o dia.

 

Já de saída, lançou mão do guarda-chuva verde escuro, reviu-se no espelho do corredor, e aprovou-se. Os dois rechonchudos e hirsutos persas fitaram-na refastelados na poltrona da sala, tomada de assalto desde que se haviam tornado co-locatários. O aparelho de TV reflectiu-a brevemente na pantalha, como uma aparição. Cumpridas todas as voltas da fechadura digna de um cofre-forte, deixou para trás a casa, desassombrada. 


A mulher caminhou até à estação do Metro, enfrentou a multilingue máquina dispensadora de bilhetes, de marca espanhola, que descompôs moderadamente em português vernáculo pela quantidade de operações requeridas e pela porcaria de ter que por o dedo onde todos os outros põem. A meio do processo, a máquina regurgitou as moedas entretanto introduzidas e teve que voltar ao princípio, mordendo impropérios. À segunda volta obteve a vitória, exibindo entre o polegar e o indicador o espólio do rectângulo verde recarregado, que alguns passos depois espalmou contra o censor, abrindo as portas de acesso ao cais. Sempre resmungando, acertou à justa no degrau da escada rolante, ajeitou meticulosamente os pés e deixou-se levar, sempre a descer. 

 

Para resistir em tempos difíceis, é preciso estar adiante, no estado emocional do porvir. Chama-se esperança. Para quem dobrou o cabo dos sessenta, o método mais recorrente é fazer o percurso inverso, no sentido da memória. Vi a mulher justapor as invocações do passado à imagens presentes: lembrou as estações tal como eram no tempo em que se dizia "metropolitano". Admitiu que melhoraram muito, mas ela, pelo contrário, era muito melhor no tempo em que as estações estavam longe do ar decrépito e encardido patenteado antes da remodelação e alargamento da rede por causa da Expo 98. Eram sorumbáticas catacumbas novas em folha a rimarem com a época, que apenas os azulejos de Maria Keil iluminavam. Consta que a parte feminina do produtivo casal nada cobrou pelo trabalho. Sobraram para relíquia nalgumas desventuradas estações da linha verde, vá-se lá saber por quê não contempladas nas obras de remodelação da rede do Metro de 98. Concerteza não foram previstas visitas estrangeiras no Areeiro, por exemplo.

 

O metropolitano de Lisboa demorou noventa e seis anos a chegar de Londres, tendo passado por vinte e cinco anos de indiferença, sessenta de resistência e onze de laboração. Em 1888, vinte cinco anos anos após a criação do Metropolitan Railway em Londres, certo Henrique de Lima e Cunha, engenheiro militar, idealizou uma rede de combóios subterrâneos para servir a capital. Publicada na revista "Obras Públicas e Minas", passou ao lado.
Seguir-se-iam duas apresentações de projectos à Câmara Municipal de Lisboa, em 1920 e 1924 -em cheio na Primeira República- por duas duplas de cujos ressonantes nomes apenas Abel Coelho destoa no ajuste perfeito a uma companhia de mosqueteiros de Dumas ou qualquer estilo de herói de cavalaria romântico: o referido, emparelhava com Leonel d'Aussenac, José Manteca Roger com Juan Luc Argenti. Ambos os projectos foram liminarmente rejeitados, e não se falou mais nisso até depois da Segunda Grande Guerra, com as verbas do plano Marshal a viabilizarem. O projecto arrancou em 1948, mas a obra arquitectada por Francisco Keil do Amaral, só teve início em 1955, terminando quatro anos depois, em formato de língua bífida: uma linha recta ligava os Restauradores ao Marquês de Pombal e daí, bifurcava para Entre Campos e Sete Rios, totalizando onze estações.

 

O comboio levava a vida que passava nesse tempo a velocidade lenta, mas tudo estava para lhe acontecer, de pé, do outro lado dos carris, cabelo enrolado numa "banana", tailleur beige, os folhos da blusa de tafetá verde estampado saindo em cascata pelo decote redondo e fundo do casaco assertoado a partir da base do peito couraçado nas copas ponteagudas do soutien, a saia travada imediatamente sobre os joelhos envoltos em meias de nylon transparente, fincando os saltos de pião dos sapatos bicudos e abertos no calcanhar, bem combinados com a malinha enfiada no antebraço, de alça dupla e fecho de mola com aplicação de tartaruga. É uma manhã de Maio de 1963 e vai às compras para a Baixa, escolher tecidos para o vestido de noiva e o segundo fato. Tem dezoito anos, quatro a mais sobre a idade mínima para poder casar, três a menos para a maioridade. Para se esquivar às sentenças da mãe, anunciou que a saída se destinava a visitar a Genoveva, a amiga indisposta que, na verdade, entraria na próxima estação. À volta, passariam pela modista para tirar medidas e fixar os feitios decalcados da Burda, seleccionando o contingente de pespontos, pinças, ilhozes, botões, colchetes, remates e bainhas chuleadas que no-dia-mais-feliz-da-sua-vida iriam manietá-la.

Gostou de se rever como era quarenta e seis estações antes, e entrou na carruagem.

Ainda não dei nome à mulher, o que começa a não dar jeito. Na verdade, não me ocorreu nome que lhe assente, provavelmente porque pouco sei sobre ela. Vou prosseguindo a narrativa, a ver o que acontece.

(cont.)


 

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publicado por Champagne e Miniaturas às 18:00





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