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A CAIXA (cont.)

Quarta-feira, 31.08.11

Manuel pressiona o botão do comando da box e corre a eito umas dezenas de canais excedentários, procurando nos títulos dos programas em exibição, aquele que possa ter algum interesse. Afinal, para que precisa um bípede de aceder a duzentos e tal canais, quando acaba por não passar de espectador assíduo de três ou quatro, meia-dúzia, quando muito?! Curioso pendor para nos deixarmos seduzir com ucharias, no caso, para cima de duas centenas de canais de TV, à uma, embrulhados na factura mensal, pois se fizermos a conta a trinta e nove euros a dividir por duzentos-e-tal-canais, é uma pechincha supimpa! Já trinta e nove euros a multiplicar por... quantos milhões?... Toma uma nota mental para tentar buscar na net quantos utentes tem aquela operadora, que é para a conta sair certa. Há-de dar sainete no Facebook.

Com o Facebook passa-se um fenómeno aparentado, é um vai-vem de gente a propor ser adicionado, é um frenesim de adicionar gente, vai na volta, interagimos diariamente com uma dúzia, se tanto, e, no geral, temos notícias regulares de uma centena, mais coisa, menos coisa, que são, na maioria, aqueles com quem nos damos cá fora. Os demais acabam por ser remetidos à categoria de figurantes que enquadram os protagonistas, e tudo junto na página do perfil é uma autêntica caderneta de cromos. Iça o laptop para o colo e resvala pelo mural a observar à velocidade de queda livre quantos amigos mudaram a foto do perfil, os updates do status de cada um, mais quem faz anos, quem mandou presentes para o Farmville, quantas propostas para o Mafia Wars, convites para eventos onde não faz a menor intenção de por os pés, mas diz que sim para fazer jeito, grupos a que foi adicionado à má-fila, mas condescende em permanecer, resmas de páginas para gostar, corações fofos e beijocas, frivolidades, parvoíces, lamechices, exibições cretinas e egocêntricas, verdadeiros case-studies de marketing pessoal, poses de engate, nacos de prosa surpreendentemente bons, ou patéticos, apelos pungentes, notícias de última hora e em primeira mão, causas, coisas para rir, verdadeiros achados, vídeo-clips a metro. O magnífico mural lembra por vezes um rio em cuja superfície circulam os mais variados e díspares objectos com destino a uma foz imaginária, um delta virtual onde se depositem como sedimentos até entupirem sem apelo, provocando uma inundação de proporções bíblicas. Tudo virtualmente, bem entendido.

 

Um rio… Qual banda sonora, liga-se-lhe na cabeça o fado do Camané "...sei de um rio, sei de um rio..." enquanto a memória o transporta para os dias de piquenique no rio Trancão saloio e transbordante de fauna e flora, nos idos de sessenta, quando excursionava com os pais e os amigos destes, incluindo as flausinas que o pegavam ao colo, de fato de banho inteiro e até depois das virilhas. Invoca sapos, ouriços-caxeiro e passarada avulsa adejando em torno de um fluxo de água revolta que galgava pedregulhos, onde era preciso prospectar minúsculos lagos afogados entre pedras e limos para tomar banho acautelado da corrente, e com vigilância atenta à aparição das cobras de água.

 

Arriscando explorar a vegetação das margens inclinadas, descobriu-se um dia uma nascente de água, onde bebeu. A sequência das fotos a preto e branco do acontecimento ainda existe em parte incerta da casa dos pais. Na década de oitenta, o rio Trancão transfigurou-se num rego de água podre e mal-cheirosa, sem rasto da maioria da bicharada, o que o acabrunha por mais que uma razão, sobretudo a sensação fatalista de que o rio da infância é a representação simbólica do curso da sua própria vida.

(...)

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publicado por Champagne e Miniaturas às 23:00

A CAIXA

Segunda-feira, 29.08.11

A avó arrecadava recortes da vida e da morte de Dom Carlos e da Rainha Dona Amélia numa caixa de sapatos. Não poucas vezes se amofinou por ver recusada  correspondência à repetida ladaínha de pedidos para que a avó retirasse do seu nicho a caixa, com o seu fantasmático conteúdo. Sempre que o pedido era deferido, dedos como pinças pequeninas, seguindo compenetradamente as instruções de manuseamento da curadora do precioso acervo, com que enlevo e fascínio desdobrava as folhas preservadas pela avó,  nascida em 1904. Mistério maior: teria à data do regicídio quatro anos, seis na implantação da República, alguns dos recortes eram muito anteriores a ambas as datas e documentavam actividades sociais, passeios e caçadas da família real. Quatro e seis anos são idades improváveis para que a avó fosse leitora de jornais e de folhetos de cordel.  Ergo, conclui que os recortes foram preservados pelos bisavós, e a avó conservou-os e estimou-os mais que legado de valor orçamentado.

 

Poética notável e desconcertante constatação do óbvio, que em meio século de existência e a mais de quarenta e cinco de memória da primeira visitação a tal espólio, jamais houvesse cruzado a cronologia de modo a topar a incoerência de atribuir a iniciativa à avó, face ao desfasamento das datas. A história da caixa tem mais que se lhe diga, é mais que mera incursão episódica numa mão-cheia de tarecos de estimação da avó. É uma herança de família, que afinal traz água no bico… Famosa entre meia-dúzia de gatos pingados por transportar material clandestino, pois, vendo bem, grande temeridade à época cultuar um cidadão relíquias da monarquia com tal desvelo, no fim da década de setenta a humilde caixa de cartão ainda se segurava à memória do seu próprio embaraço, sempre resguardada em prateleira discreta do armário embutido na parede, barricada por objectos fora de uso, velada à esquerda pelo altar pintado de azul de Nossa Senhora da Conceição, com uma lamparina de azeite aos pés.   

 

Lembrou-se disto tudo logo que o genérico do telefilme "República" começou a desfilar, segurando ainda o fio da meada que começou a dobar desde que se predispôs a assistir à película, entusiasmado pelo curriculum do realizador. Meia dúzia de cenas decorridas, já se sentia do lado dos depostos, na vez do dos vencedores. Culpa da falta de carisma das personagens republicanas insossamente encarnadas por pálidos actores, por oposição ao maior gabarito e competência daqueles a quem calharam figuras monárquicas? Bah, erros de produção capitosos –credo, na sequência da fuga no eléctrico, como se viu o prédio completamente anacrónico! Opção de exploração de épocas sobrepostas pelo lado surreal, não fora o denunciado convencimento de que a rapidez do plano iria deixar escapar a evidência da construção moderna. Contra o que é costume na produção nacional, repreensível caracterização: o heróico combatente republicano passa meio filme com uma escara no pescoço que mais parece uma cultura de estafilococos. Má direcção de actores? Mau casting?... Será isso, só isso, ou a antipatia que sente pelos heróis e heroínas republicanos é reflexo de subliminar ressentimento para com esta mal-fadada república, que nunca correu bem? Parece-lhe que a representação do lado republicano, mais do que artificial e enfatuada, ressuma uma espécie de presunção de capataz onde se reconhece mestria no exercício do pequeno poder. À portuguesa, como o cozido, a calçada e a tourada. Excessivos, acidentados, dramáticos e albardados.



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publicado por Champagne e Miniaturas às 23:49

José (cont.)

Sábado, 27.08.11

- Vais recambiar-me para o Inferno. Isso existe, afinal?

 

- Não. Para quê?! Os que se portam mal são recambiados para a terra e pronto, mais cedo ou mais tarde, fazem-lhes a folha.

 

- E os inocentes? Os desgraçados que são vítimas da cobiça, como o Abel? Também se portaram mal e por isso, fazem-lhes a folha?!

 

- Não é assim tão simples, José, é complicado, alguns até são voluntários para exemplo, mas se queres que te diga, estou sem paciência para pregar.

 

Jesus envolve os ombros de José com um braço, e confidencia: Escuta, estou exausto. Farto disto. Tenho uma proposta para te fazer. Quer dizer, em verdade, não é bem uma proposta, porque não te vou dar alternativa, lamento, é mais... uma tarefa. 

 

- Mau, tipo purgatório?
         
- Deixa lá isso…

 

- Vamos lá a ver então…

           
- Olha, tens aqui o halo, a túnica e as chaves. Toma-me conta disto por um bocadinho. Estás à vontade.

 

- Mas… espera aí? Então...

 

- Desculpa, não há hipótese. Quero ir lá abaixo outra vez, mas desta não me vou por a jeito. Ninguém me apanha. Tu ficas aqui e determinas consoante o que sempre defendeste. Inventas um deus para os bons, outro para os maus, ressuscitas o Abel, tramas o Caim, fazes a vida negra ao Papa, dás cabo de todas as bíblias, ou reescreve-a, revertes o tempo, desinventas o pecado, salvas todos os mártires, castigas todos os tiranos, o que te der na gana.

 

- Não sei se estou para aí virado!

 

- Tens mais alguma coisa para fazer?

 

- Pelos vistos, não… Mas é surreal… É desadequado, não sei que diga.

 

- Não digas nada. Até já.

 

- Espera! Vais deixar-me assim, a pairar sobre Portugal?

 

- Dentro de minutos, estás em toda a parte, Portugal incluído. Fica bem!

 

- Há aqui qualquer coisa que não bate certo. Acho que é uma cilada. Há bocado, disseste-me que não podias reverter os teus desígnios, lá está, estás a oferecer-me um engodo...

 

- Deixa-te disso. Eu não posso alterar os Meus próprios desígnios -tem algum jeito?- mas tu podes, se quiseres. Mais a mais, se Me vou, já não existo, por isso, estás nas tuas sete quintas, à tripa-forra. Que mais podes querer?

 

- Isso não é bem assim, não dizes que és omnipresente? Tanto faz estares aqui, como noutro lado, então, estás em todas as partes. Grande patranha me estás a pregar.

 

- Não estou. É o que pretendo. Delego-te as minhas competências para toda a tua eternidade.


- Para onde é que vais mesmo? Estás contactável?

 

- Claro. Basta pensares em mim. E vou sem destino, é conforme me apetecer.

- Se eu te chamar, vens?

 

- Logo vejo. Até à vista!

 

- Nem sequer me fazes um briefing? Como tencionas acabar com o conflito israelo-árabe, se é que tencionas...? Com o terrorismo? A fome? Qual é a tua posição quanto à sustentabilidade?

 

- Isso agora é contigo, faz o que entenderes.

 

- Isto é de gritos. Mas agora o mundo vai chamar a deus, José, ou Saramago?!

 

- Só se tu quiseres, mas vai por mim. Deixa estar como está. Deus, Allah, Jeová... Eles não notam a diferença e agora és invísivel...

 

- Estou sem palavras!

 

 

Jesus retirou a túnica e, tal como previsível, não havia nada por baixo. Não se confunda o afirmado com qualquer alusão a falta de roupas íntimas ou intenção despudorada, prefigurando um Cristo com as partes à mostra, com sexo e nádegas sequer, tal seria demais, e certamente uma candidatura bem provisionada à excomunhão da escrevente. Incorpóreo, é o que se pretende transmitir. Enfiou-a à trouxe-mouxe pela cabeça de José, que a compôs com relutância, espalmando as mãos no tecido, entre a função de alisar e o embaraço do desconcerto. Com um gesto redondo e grácil, Jesus transpôs o halo para José, e atirou-lhe as chaves enquanto se afastava a passos largos na direcção do infinito.

           
- Espera um bocadinho, diz-me só uma coisa: sabes quem é que ganha o  Nobel da Literatura este ano?

 

- É o Vargas Llosa, responde Jesus, sem se virar.

 

- Estou para ver...

 

Jesus estaca e vira-se a três quartos:

 

- Vais interferir?

 

- Nada disso, seria pulhice aproveitar-me do cargo para tramar um companheiro de letras!

- Ficam-te bem esses sentimentos. Eu te abençoo, diz Jesus, rematando com o gesto ictus.

 

- A ver se acertaste!

 

- A ver vamos. Adeus.

 

- Para que servem as chaves?

 

- Para nada, é só para o estilo, um símbolo: "as portas do céu", por aí.

 

- Mas as chaves não eram com o São Pedro?

 

- Ele tem as dele, não te rales.

 

 - Jesus, não me deixes aqui sozinho! gritou José

 

 - Vês? Até tu... Não te queixes, homem. É a tua oportunidade.

 

 - Mas por que razão, meu deus?!

 

Jesus virou-se uma última vez para trás, sorriu resplandecente, olhou-o complacente, e estendeu na sua direcção a mão omnipotente.

 

- Eu o disse, José: a cada um, o céu que idealizou.

 

FIM

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publicado por Champagne e Miniaturas às 20:31

José (cont.)

Quinta-feira, 25.08.11

 

- Sendo assim, prossegue José, passemos ao segundo diálogo. Faça favor de tomar tento: escrevi a minha perspectiva convicta sobre o embuste judaico-cristão e a igreja católica apostólica romana, e o seu constrangimento sobre a humanidade. Não retiro uma palavra. Repare, sinceramente nem estou contrariado por estar aqui, mas confesso que estou desapontado. Acho o cenário e o guarda-roupa muito previsíveis.

 

- Aqui entre nós, isso é da responsabilidade da escrevente. O imaginário dela não chega para mais. Em verdade te digo que o enquadramento é indiferente, somos como Nos vêem, porque não Nos parecemos com alguma coisa que exista na dimensão de onde acabas de chegar. Por isso, pouco importa se Me colocou nestas vestimentas e com  este aspecto, a praia onírica que inventou também é irrelevante e até estas palavras são escusadas, pois não precisamos delas e, quando tem mesmo que ser, preferimos manifestar-Nos noutras línguas, como o aramaico ou o sânscrito.

 

- Pronto, já que aqui estou, diga-me: e agora,  o que acontece?

 

- Vamos dar uma volta.

 

Jesus rodeia-o com um braço e José tem a impressão de voarem, o que o remete de imediato para o episódio do Novo Testamento da Tentação de Cristo, mas ao contrário. Dá-lhe a impressão que pode dar-se o caso de estar prestes a ser tentado a ter fé nas suas próprias palavras. O turbilhão de luzes que se segue parece efeito da toma de um alucinogénio e lembra-lhe passagens do "2001 Odisseia no Espaço", banda sonora incluída. Segura-se com unhas e dentes à túnica do Cristo, estranhando que no estado de morto ainda seja acometido por tal parafernália de sensações terrenas, que vão de cãibras no lugar onde antes tinha o estômago, até ao pindérico medo das alturas. Quando travam de chofre e tudo volta a ter feitio, volumes e cores, à primeira vista o que vê em baixo parece-lhe uma jangada encalhada, toda remendada e a desfazer-se nos bordos.  

 

- Estamos em Portugal, diz-lhe Jesus. Vamos ao teu funeral?

 

- Não me apetece nada… Vou-me afligir muito com o sofrimento das pessoas que amo. É absolutamente necessário?

 

- Não, não é. Não tens curiosidade de saber onde vão depositar as tuas cinzas? Boa ideia a da cremação, a propósito. Tenho uma certa preferência por essa fórmula de reciclagem do corpo físico.

 

- A sério? Sempre pensei que fosse uma prática hinduísta..., diz José, escarninho.

 

- Precisamente, ora pensa lá um bocadinho. Tu o escreveste.

 

- Pois. Não me diga que acertei?! ...Acolá, são os Açores? E aqueles ali estão... parece-me que conheço de algum lado.

 

- Ele vai dizer que nunca te viu mais gordo e por isso opta por não interromper as férias com a família.

 

- Não me dá cavaco, portanto. Ora aí está uma atitude verdadeiramente cristã: bonito gesto, não me afrontar na morte com a sua presença. Há-de ter que me gramar as cinzas debaixo de uma oliveira plantada diante da Casa dos Bicos! 

                    

- Convinha que lhe perdoasses, José.

 

- Realmente, agora não faz diferença alguma... Coitado, quando cá chegar, há-de ser o bom e o bonito!

 

- Cada um tem o céu que idealizou, José, quando cá chegar, ele terá o seu, à sua medida, correspondentemente com o que idealizou.

 

José mergulha numa rápida reflexão àcerca da explicação lógica e simples de todas as coisas, à procura do sentido a dar ao sonho depois da morte que está a viver, mas por mais voltas que dê ao pensamento, continua com maior número de perguntas que respostas.

 

- Sou todo ouvidos, diz Jesus. Pergunta o que quiseres, não dês mais tratos à cabeça.

 

Acontece-lhe um qualquer sucedânio de corar:

- Pois, já percebi que tanto dá pensar ou falar alto, vai tudo dar ao mesmo por aqui. E escrever? Pratica-se por cá?

 

- Aqui escreve-se o que se quer, como se quer, inclusive por linhas tortas. Só não tenhas expectativas de leitores, pois aos que por cá ficam, as leituras nada acrescentam e, de resto, têm mais que fazer. Os demais estão de passagem, praticamente nem aquecem o lugar...

 

- Vai-me custar perceber essa mecânica. A propósito, afinal, onde está deus?

 

- Está no meio de Nós, José.

 

- Aqui também?! Nunca dá a cara?

 

- EU SOU, José.


- Isso de ter três caras, também é muito conveniente! Pronto, com tantas evasivas, estou a ver que ainda não é desta que vejo deus a admitir os seus próprios erros...

 

- Pois enganas-te.  Trouxe-te aqui precisamente para isso. Compreendes, diante dos outros não posso desautorizar-me...


- Admites então que cometeste erros?!


- Claro. Um deles, foi deixar-Me pregar na cruz. Achei que deixar-Me matar seria a maior prova de amor. Esse momento, não só se sobrepôs a tudo mais na iconografia cristã, como deu azo a que uma mão-cheia de facínoras de muito má catadura e com as piores das intenções usassem a via sacra e a crucificação para sobrevalorizarem o sacrifício e o sofrimento. Outros, menos maus mas um bocado lerdos, distorceram tudo, acharam que era para seguir esse exemplo de dor. Todos juntos, arranjaram-na bonita! Acharam que podiam inflingir dor, um disparate. Não era nada disso, era precisamente o contrário! Já tinha vindo emendar a mão, depois de ver no que deu aquela do "olho por olho, dente por dente", entre outras, e, na volta, eis que torna tudo ao mesmo, ou pior! Mas o maior erro de todos foi confiar que a Minha centelha divina em cada um se iria sobrepor à barbárie, e que a maioria viria a reflectir a verdadeira intenção da minha encarnação na terra. 


- Emendar a mão... Ironiza José.

 

- Sim, através do amor.

 

- Até nem duvido que a intenção fosse essa, mas faz-me espécie que tu, que pelos vistos tudo podes, não tenhas dado cabo desses figurões, com um raio que os partisse, sei lá, evitando que criassem uma igreja em teu nome, à imagem e semelhança, não do que vieste cá fazer, mas de um qualquer império, praticando genocídio durante séculos. Milhões de mortos e de barbaridades inimagináveis, fora as pancadas psicológicas que subsistem até hoje e que dão coisas como padres pedófilos -sabias disto, não?, olha para o que lhes deu o "deixai vir a mim as criancinhas". Como não te deste ao trabalho de impôr os teus objectivos?!

 

- Não percebes, José. O amor não se impõe. Também não vejo o homem como títere. Demos-lhe o sopro da vida e o livre arbítrio. Se calhar, este último também foi asneira... mas a partir do momento que o criámos assim, não houve mais volta a dar-lhe. Não podemos reverter os Nossos próprios desígnios.

 

- Interessante, mas pouco consistente. Nem à palhaçada do concílio de Niceia puseste cobro! Até hoje, estamos sem saber se os evangelhos que caíram da mesa abaixo eram melhores ou piores que estes.

 

- Isso também não interessa para nada, José.

 

- Mas foi uma grande vigarice, está-se mesmo a ver! Ou foste lá mesmo escolhê-los por tuas próprias mãos?!

 

Jesus olhou-o de soslaio: - Não confirmo, nem desminto...

 

- Muito convenientemente, ambíguo e evasivo. Como pudeste consentir na ascensão e hegemonia da igreja católica, que mergulhou o mundo num sem-fim de guerras, cuja tirania durou infinitamente mais que o nazismo, torturou e matou incomensuravelmente mais gente, foi um atraso de vida para a cultura e o conhecimento?

 

- Já te disse. Tem tudo a ver com o livre arbítrio. E a concorrência também tem as suas manigâncias. Estás a ver, o nazismo é obra da concorrência.  Olha lá, antes que me esqueça, grande alarido sobre o teu livro "O Evangelho Segundo Jesus Cristo" e tal... tens noção de que não inventaste a pólvora com o desfecho? Sabes quantos antes de ti tiveram a mesma percepção, apresentaram essa, digamos, teoria? De resto, boa parte do que escreveste e afirmaste já o tinha e tem sido dito por outros, até os Cátaros, coitadinhos, e mais recentemente, umas seitas que andam para aí relacionadas com Nova Era. Só que tu eras escritor, produziste um livro, recebeste um Nobel, tornaste-te mediático e, no meio dessa tua confusão entre espiritualidade e religião, decidiste alcandorar-te numa defesa do ateísmo como forma de pacificar o planeta, que espalhaste aos quatro ventos. Olha que também me saíste um pedaço ingénuo.

 

- Não tanto, que não perceba as tuas manobras para te esquivares às questões que estava a colocar-te, trazendo-me para a berlinda. Hás-de de concordar que boa parte dos conflitos da humanidade têm que ver com divergências e preceitos religiosos. Que a religião inquinou toda a natural forma de estar entre as pessoas.

           
- Desculpas, José. Se não fosse por isso, era por outra coisa qualquer, porque o que está em causa é uma natural compulsão para o poder, e a ganância. Achámos bonito fazê-los imperfeitos e vê-los a evoluir para a perfeição. E até se dá, sabes? Alguns conseguem. Nunca pensei que a maior parte levasse tanto tempo e desse tanta chatisse! Devia ter previsto um plano B. Mea culpa.

 

- Ha ha! Admites.

           
- Julgas que Me caiem os parentes na lama? De qualquer maneira, isto não sai daqui, até porque tu não vais a lado nenhum, não é?

 

- Mas continuo na minha, já que és tão poderoso, porque não desencantas maneira de pôr cobro a todos estes colossais desmandos?!

           
- Porque já não está na Minha mão, pronto. Aliás, o desassossego e o descalabro são tamanhos, que Eu e os meus não temos mãos a medir. Andamos num virote! Vinte e quatro horas sobre vinte e quatro horas de serviço, dia após dias, ano após ano, décadas, séculos, milénios a ouvir o chamado em inglês, em espanhol, em português, chinês, árabe, hebreu, todas as línguas ao cimo da terra - SOU sempre O mesmo, percebes? "Ai Jesus! Valha-me Deus/Allah/Jeová! Pai Nosso, dá-me isto, dá-me aquilo. Livra-me disto, livra-me aquilo." Um horror! E felizmente há budistas, hinduístas, xintoístas, animistas e até adeptos da concorrência, se não, ainda era pior! Os budistas são do melhor que há, não pedincham e não se queixam. A sorte dos Budas, já viste? Por isso têm aquele ar feliz e repousado. Pudera!

           
- Pois, agora queixa-te. Estás a ver no que deu a mania da omnipotência e da omnipresença?

           
- Olha, a propósito,  tu também só vês o que te convém. Achas que se Eu não consentisse ganhavas algum Nobel e eras famoso?

 

- Para isso, já tudo podes! Por acaso acho que não meteste prego nem estopa no assunto. Ignoraste-me ostensivamente, e quando olhaste, a coisa já se tinha dado. Ora aí tens!

 

- A sério que crês nisso? Pensas que determinaste a tua própria vida inteiramente?

 

- Acho sim senhor. Quer dizer, claro que dependi de muitos juízos e de muitas acções, mas todas elas humanas, nada divinas. E lá porque afinal existes, não penses que mudei de ideias.

- Ateísmo é não acreditar em Deus. Não é confrontá-Lo, desafiá-Lo, contestá-Lo. Aliás, meu caro, na verdade, sempre achei imensa piada ao teu ateísmo. Raros foram os artistas que tanto se Nos dedicaram. Às vezes irritavas-Me um bocado, parecia que Me tratavas como se Eu fosse o dono todo-poderoso de uma multinacional à escala planetária, e tu um sindicalista. Aquela da Bíblia, contudo, foi estupenda. Como é que era... um livro de maus costumes! Olha que de certo modo, até te dou razão, parece que quanto mais a lêem pior ficam.

 

- Não percebeste nada. E, se calhar, já a fazias parar com essa história das letras maiúsculas e do "nós" majestático, não?! O que pretendia dizer era precisamente que deus foi uma invenção muito adequada às más intenções dos malévolos que pretendem o poder, só criou discórdia e conflitos porque foi instrumentalizada para atingir os objectivos das corjas dominantes. Fui ateu, sim. Deus  foi inventado por homens, contra homens. Agora que existes, o caso muda de figura, ou seja, ainda é pior. Existes, e consentes nisto tudo!

           

- Muito bem, era o que Eu queria ouvir. Rematou Jesus, triunfantemente.

(...)

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publicado por Champagne e Miniaturas às 23:52

José (cont.)

Segunda-feira, 22.08.11

 

Chegam entretanto a uma espécie de praia com estranhas colorações, coroada por um céu púrpura onde poalhas verdes de luz evoluem como auroras boreais, reflectindo-se a ouro no mar azul extenso, incrivelmente silencioso e fluorescente, que ao invés de desaguar se une ao areal irisado, como coisas feitas para estarem juntas.

 

Não me lembro de ter descrito um sonho com tais cores, mas com franqueza, posso lá lembrar-me de tudo o que escrevi.  Acho a paisagem um tanto forçada, faz-me lembrar aquelas gravuras... Nova Era, ou que é. Olha, já cá faltavam os golfinhos! ...Ou estaremos num resort todo artificial do género daqueles que se fazem no Dubai? Hoje em dia tudo é alterável à face da Terra, a bel-prazer, praticamente já não há mistérios, porque as ilusões os batem aos pontos. Não sei se me agrada sonhar assim. Sinto-me capaz de enfileirar com todos os pasmados que contemplaram pela primeira vez a passarola. E se não estou a sonhar, deliro? Se isto é real e estão a usar aqueles efeitos especiais, como no cinema?! Demasiado informal, pouco aparato protocolar para mais um prémio, embora, pelas auroras boreais, bem pudessemos estar na Noruega. Alguma reportagem de televisão? Pelo estilo, não sei se irá sair daqui grande coisa... Mas quem autorizou isto, afinal?!

 

Ao centro da praia, na orla do mar, vê um magote de gente que parece saída de um fresco renascentista, ladeando em desalinhado semi-círculo o que se lhe representa uma figura bíblica vestida de branco resplandecente, ou seja, mais um com halo todo à volta, o maior de todos os halos que se exibem, sem excepção, em torno de todos os figurantes do quadro. É assaltado por outra escrita alheia, desta vez de Eça de Queiroz: "Era, escarradamente...", logo que topa estar, sem tirar nem por, em presença do estereótipo do Jesus Cristo católico, e sobressalta-se. Sonho com as minhas personagens e só me ocorrem frases de outros escritores! Será sinal de que estou para morrer? ...E não é que o sujeito está a abrir os braços como o Cristo Redentor?! É demais! Acto contínuo, sente o envolvimento de um abraço, que devolve atabalhoadamente. Nunca gostou por aí além de manifestações públicas de afecto demasiado efusivas, e a figurinha é deveras intrigante. Que charada! Alguma cruel conspiração de uma seita das que se sentem enchofradas com as minhas diatribes contra a Igreja Católica? Ou serei antes vítima de um daqueles patéticos programas de "apanhados"?  


A figura de branco fala, projectando bonito timbre transfigurado em voz profunda. Solta pausadamente palavras sussurradas em modulação persuasiva, proferidas com a tranquilidade e firmeza messiânica dos que se sentem seguros de estar na razão, envoltas numa toada penetrante, hipnótica, ressumando endoutrinamento, transmissora de confiança, só passível de ser produzida por quem leva a peito uma missão evangelizadora, ou possui um sistema de som equipado com reverb. Apre! Parece o Francisco Louçã e todos os do Bloco de Esquerda!, ocorre-lhe.


- José, sê muito bem vindo! Sossega o espírito, estás em paz, com gente de Paz, que te quer muito bem. Quisemos receber-te de uma forma muito especial...

Trata-me por tu, por alma de quem?! -pensa- Há coisas piores, mas não o conheço de parte alguma para tanta informalidade. Nisto, tem uma iluminação: será marxista? Camarada, perdão, recorde-me o nome desta bonita localidade. E qual é a sua graça, por favor?

Um burburinho divertido percorre a comitiva da figura de branco com o super-halo, que tergiversou: José, tenho estado ansioso para conversar contigo.

 

- Isto já está a passar das marcas. Então, arrastam-me para uma conversa, e eu nem sei do que se trata. Tratam-me tu-cá tu-lá, dão-se ares, e fecham-se em copas quando peço esclarecimentos? Acho que vou acordar e acabar com isto imediatamente!

- Não podes, José, lamento -disse-lhe a figura de branco, com comiseração e a voz cheia de efeitos. Ou, por outra, não lamento que não possas acordar. Lamento ter que te dizer que não podes fazê-lo.

- Como assim?! Com que autoridade pretende controlar os meus sonhos e as minhas vigílias?! É inadmissível, além de tecnicamente impossível.


- Oh José, isso era conversa para quando estavas no mundo. Enquanto estiveste no mundo, resististe, e muito bem, ao condicionamento da tua vontade. Quer dizer, tirando uma ou outra parte da militância partidária que era um bocado escusada, mas mesmo assim nem correu mal de todo, a maior parte das vezes estiveste bem. Sabes, não se trata de uma questão de controlo e autoridade, de certa forma, por Mim, diria mais ser uma questão de ...autoria. Pode dizer-se que vives um sonho permanente, pelo menos até decidires, se decidires alguma vez voltar.


- Que arenga! Isto está a sair-me uma pessegada! Olhe que este sonho não está a fazer-me bem algum, no estado em que me encontro, não posso exaltar-me. Narrador! Faça favor de avançar!


- José, José, escutaste o que disse e percebeste lindamente. Não entres em negação, que isso tem efeitos secundários muito desagradáveis. Ainda desatas a assombrar e depois é um martírio para te estabilizar. Admite, aceita e harmoniza-te com o teu novo estado, se faz favor.

- Já não estou no mundo –profere num fio de voz, mas logo se recompõe. Não é nada de que não estivesse à espera. Quer dizer que morri, pronto. Era previsível e inevitável, mais cedo ou mais tarde. Agora, se estou morto, não posso é estar a sonhar!


- Efectivamente, não se pode dizer que estejas, mas também não se pode dizer que não estás. É uma questão de perspectiva. Se quiseres, vens de sonhar e entraste na realidade. A realidade e o sonho também são a ausência um do outro.


- Não posso crer!


- Já se ouviu! Foi o que andaste a escrever e a dizer todos estes anos...


- Acabou de aludir à minha definição do Bem e do Mal tal qual a escrevi no Evangelho Segundo... você, não é? balbuciou


- Ora até que enfim! Estava a ver que nunca mais saíamos do primeiro diálogo. Disse Jesus, sorrindo com benevolente ironia e dando-lhe uma palmada nas costas. Por vezes foste um bocadinho longe de mais, José, mas já lá vamos.

(...)

 

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publicado por Champagne e Miniaturas às 20:50

José

Domingo, 21.08.11


E agora, José?, ocorre-lhe logo que vislumbra o túnel, escandalizado consigo mesmo pela impertinente lembrança do verso do Carlos Drummond de Andrade, não por desgostar do autor, nem dos versos, mas porque a ocasião, seja ela qual for, merece algo inédito e, de preferência, próprio e lapidar. Uma frase daquelas que depois se arriscam a aparecer transcritas em minúsculos livros de citações a despropósito de um tema qualquer mimoso ou de elevado pendor, ordinariamente depostos sobre os balcões das livrarias à mão de semear da compra por impulso junto à caixa registadora, ou o que se há-de chamar à híbrida maquineta actualmente em uso, arraçada de computador. 

 

Excesso de luz, pensou, uma pessoa fica praticamente atordoada. Sente-se bem, como há muito não sentia, muito atrás de adoecer, antes de ser progressivamente minado pelo alastrar dos anos, alquebrando, secando, ganhando pigmentos, perdendo cabelos, e por fim o fôlego. Move-se jovem como já não tinha memória física de ter sido, e perto de se comover com isso. Belo sonho. Só gostava de saber como vim aqui parar. É que tem a impressão de ter sido convocado, de estar ali para cumprir um compromisso, só não se lembra com quem e de que se trata. Deu-se conta de não estar na cama quando já caminhava por um corredor sem princípio nem fim, cujos limites em largura e extensão parecem constituídos por metal frio em estado líquido, sem portas nem janelas, mobília ou qualquer espécie de ornamentos. Apenas luz que converge para mais luz ao fundo, ou talvez dele irradie com um fulgor impossível. Não se vê viv'alma, nem vestígios de mão de gente, no entanto, frui que não está só, como se alguém o acompanhasse guiando-o na direcção do foco. Confortado pelo alívio das dores, deleitado pela facilidade com que respira, liberto da ditadura da doença, caminha gostosamente. De tão leve, dir-se-ia que paira.

 

Ao fundo do túnel está alguém, mais precisamente, um vulto emoldurado num halo. Percebe imediatamente que sorri, percepciona sem ver a bonomia do olhar. Não lhe distingue feições, mas por fenómeno ainda sem explicação as expressões faciais são nítidas, não sabe se as vê com os próprios olhos, se o assiste outro sentido que não qualquer dos consabidos cinco. Sorri de volta, determinado, mas com algum embaraço, bom dia, desculpe, qual o nome deste lugar? Faz tempo que não me é possível aceitar compromissos, nem fazia ideia que tinha algo agendado... De que se trata, por gentileza? O vulto estende-lhe as mãos paralelas, de palmas abertas e ligeiramente em concha. José devolve-lhe um rasgado cumprimento e surpreende-se com o vigor com que o faz. Já a mão do outro, parece-lhe diáfana, quase inexistente, embora emanando um bem-estar com acção distensora e indutora de sorrisos rasgados, que é o que se passa consigo, compulsivamente, pensa, ao constatar o próprio sorriso alardeado de orelha a orelha. Estava capaz de afiançar que não o viu mover os lábios, mas ouviu audivelmente, sou o Abel e fiz questão de recebê-lo... em pessoa. Siga comigo, por favor, já o esperam.

 

Estou atrasado?! As minhas desculpas, repito, não fazia a menor ideia de ter este compromisso, prossegue um tanto constrangido, é que não tenho estado muito bem, com certeza já ouviu dizer... Hesita um segundo e acrescenta entredentes, num murmúrio desamparado, estou bastante confuso, não estava a contar... Na verdade, nem sei onde estou... Não fui informado e não costumo andar sozinho.

 

Abel envolve-lhe o cotovelo, reconfortando-o e impelindo-o para diante com suavidade. Chegou à hora marcada, não se apoquente, e é natural que esteja confuso, todos ficam. Vamos andando. José detém-se na coincidência e não resiste ao remoque. Abel, disse, é o seu nome? Como o bom irmão? O vulto responde com simpatia algo divertida, confirmando com um ligeiro aceno de cabeça. Bom, pensa José, se fizeram de propósito, não lhes falta sentido de humor. Hostilidade, não me parece, caso contrário, mandavam antes um chamado Caim. Solta uma abafada risada que, surpreendentemente, faz coro com a gargalhada simultânea produzida por Abel. Que diabo!? (o Abel franziu o cenho?), se calhar verbalizei o que pensei, sem me dar conta! Que partidas me prega a mente, entre velhice, remédios e doença!

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publicado por Champagne e Miniaturas às 21:30

Champagne e Miniaturas (cont.)

Sexta-feira, 19.08.11

Para Alice, o Metro é uma montra onde se exibem os pedaços crús das filas de baixo da cadeia alimentar montada pelo falacioso desenvolvimento. "Somos europeus... é preciso ter lata! Somos tudo e mais alguma coisa!". O slogan automaticamente lhe convoca outro : "Orgulhosamente sós!". Oponíveis formalmente, a quarenta anos de distância um do outro, mas a Alice soam-lhe subliminarmente a trezentos e sessenta graus, ou seja, uma volta completa num círculo, para desembocar na intangibilidade. 

 

Observa tudo e todos minuciosamente, não deixando escapar o mínimo detalhe que lhe pareça indício do crime da perda de civilização. Censura o pneu descoberto das barrigas entaladas entre tops e calças de ganga baratuchas a imitar as caras, os estilhaços encarnados de verniz nas unhas dos pés, as malas contrafeitas "davuton". Choca-se com os maus modos, intriga-se com o olhar alheado, que quando estabelece contacto é hostil como o de um gladiador enfrentando outro no circo "Ave, Caeser, morituri te salutant". Não percebe o que se passa com as pessoas, ou por outra, tem a sua teoria: acha que está tudo doido. Sobretudo, tem pena. Uma compaixão imensa por esta gente que povoa o subsolo da cidade, exibindo no rosto o mapa da rota do cabo dos tormentos, consumindo como drogas logros criados para que mantenham a ilusão da esperança.

 

Os estandartes estão desfraldados em todas as estações, com gente bonita e triunfante porque ingere aquela marca de iogurte com microorganismos que dão por nomes de ressonâncias latinas, mas ninguém sabe o que são; bebe aquele refrigerante cheio de ingredientes que não interessam para nada; lava o cabelo com champô de frutas que não lembravam ao careca, e, à falta do submarino do Almada para se ir chatear debaixo de água, vai ao Rock in Rio aos magotes para não perder o hábito de andar encavalitado. Os viajantes do metro estão quase todos nos antípodas dos modelos que lhes servem de figurino, mas perseguem-nos sem darem conta que se afastam de si mesmos irreversivelmente, seguindo uma bússula sem ponteiro, perdidos sem apelo porque convictos ao absurdo de estarem no rumo certo para chegar ao Eldorado, um belo dia. Garimpam o empréstimo da casa, o cartão de crédito, jogam no euromilhões, escarafuncham raspadinhas, na expectativa da ocasião em que a grande pepita os vai fazer ricos, bonitos e famosos, sem poderem dar-se ao luxo de perceber que tudo o que têm, é o suficiente para que alguns possam ter tudo quanto existe. Revêem-se nos casos de sucesso mediático que viram símbolos identitários -gente do futebol que tem filhos por encomenda ou artistas de renome internacional cujo maior alento inspirativo é alpinismo social- com um misto de inveja e enlevo serôdio, convencidos que se também tivessem nascido com o traseiro virado para a Lua, também tinham lá chegado.  Detêm uma colecção notável de opiniões que rapam sobre todos os assuntos, ao mesmo tempo que dão tratos à cabeça a ver se descobrem a fórmula química do dinheiro elástico.

 

Duas estações mais tarde, vagou um lugar que ocupou consoladamente junto de uma mulher debruçada sobre um iPhone. Observou-a de relance enquanto se recostava e repousava as mãos cruzadas sobre o cabo curvo do guarda-chuva. Achou-lhe bom ar, apesar do pretensioso artefacto, e tinha as unhas arranjadas. Viam-se bem, porque deslizava os dedos no ecran daquilo. Foi lançando frases como iscos, mas a sujeita não descolava da geringonça, credo! Os outros à volta iam remirando com o ar desdenhoso e escarnecedor do costume, e o seu destino aproximava-se.

 

In extremis, virou-se a três quartos para a mulher do complicado telemóvel, esticando perpendicularmente o pescoço, engatilhou o sorriso e disparou: champagne e miniaturas, acha bem? 

 

A outra emergiu do iPhone e entregou-lhe, finalmente, o olhar atarantado. Fixava-a como quem mastiga, e espera a próxima colherada a ver se descobre a natureza do manjar.

 

- Serviram champagne com miniaturas! Ao que isto chegou!


Alice aproximava-se da estação do destino, ergueu-se, pediu licença umas poucas de vezes e saiu com a tarefa já cumprida. Entregara o mote do primeiro conto que aquela mulher iria escrever. Orientou-se para a saída, seguindo as placas indicadoras com hesitação. Ao fundo do túnel, achou luz. Chovia miudamente. Abriu o guarda-chuva verde e harmonizou-se com a brisa. Quando uma rajada de vento insuflou de leve o tecido impermeável, Alice deu conta da perda de contacto dos pés com o chão, e segurou-se firmemente ao guarda-chuva, usando as duas mãos. Lentamente, as botas rasas de verniz preto foram ganhando distância das acidentadas pedras da calçada à portuguesa. Aos cinquenta metros de altura, abriu os olhos e viu os prédios, as ruas, as pessoas cada vez menores, a caminho de se parecerem com um mapa miniatural.

 

Ao que isto chegou!, disse, antes de ficar encoberta por uma nuvem.

 

FIM

 

 

 

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publicado por Champagne e Miniaturas às 19:55

...

Terça-feira, 16.08.11

Cedeu ao segundo revés da vida e caíu em depressão profunda. Dopada por uma cornucópia de calmantes e anti-depressivos, ganhou peso e perdeu parte substancial de si. Um mal orientado desmame dos medicamentes produziu efeitos irreversíveis. Como há sempre excepção à regra, Laura, a cunhada, o irmão António Miguel e o amigo João Nuno ampararam-na. Intermitentemente, também os filhos, com maior assiduidade da parte de Gonçalo, mas lograram a salvação do lar, e sobretudo, dum pedaço ínfimo de amor-próprio, que medrou evitando pior desfecho.

 

A casa de Alvalade é agora um mausoléu de obras cristalizadas, prateleiras de livros quase quilométricas, ocasiões capturadas em fotografias, peças de arte que escaparam ao holocausto dos credores ou chegaram depois, móveis datados, caixas ocas, armários com gavetas onde se acumulam resmas de documentos e objectos de estimação sem préstimo, estilhaços de dias passados imaculadamente limpos pela mulher-a-dias que vem duas vezes por semana. Da passagem pelo mercado de trabalho sobra-lhe uma patética reforma. Não fosse o quinhão das rendas de um prédio herdado e partilhado com irmãos e sobrinhos, parcialmente habitado por gente mais velha que Matusalém em braço de ferro com a morte, e não teria o suficiente. Muitas vezes não sabe o que fazer ao tempo, aborrece-se com as amigas, um rancho de velhas em competição pelo record do maior número de sintomas do cardápio das doenças. 

 

Nunca se compatibilizou com a condução de automóveis, por isso, é utente diária do Metro de Lisboa. Vai recebendo alguns convites por conta das suas antigas ligações com o mundo das artes, mas, no geral, ocupa-se todo o dia com assuntos que só existem na cabeça dela. Pretextua motivos para ocupar os caixas do banco, põe toda a espécie de impertinentíssimas dúvidas a funcionários públicos na repartição de finanças e na segurança social. Entra em todas as lojas, apreça artigos, inquere sobre tudo. Quando não vai, telefona. Tira do sério os sujeitos de serviço no call-center das operadoras de telecomunicações, teimando na tarefa inglória de lhes arrancar uma resposta diversa das que estritamente lhes são ensinadas para executarem a sua função de papagaios do pirata, e justificarem os trinta dinheiros que arrecadam mensalmente, todos eles já com destino marcado antes de serem recebidos. Escreve impublicados poemas que se acumulam nas gavetas e muitas cartas manuscritas a tinta permanente, remetidas aos mandantes institucionais de desmandos vários.

 

Engenhou uma espécie de guerrilha geriátrica de ataque ao Estado, às operadoras, à banca e aos antros de consumo em geral, que basicamente consiste em perturbar desaustinadamente, alcandorada na idade e no bom ar. Os funcionários reviram os olhos quando a vêem franquear a porta, mas aturam-na, talvez pelo inofensivo fait-divers que proporciona à rotina diária. Na pior das hipóteses, em dias de maiores azeites, provoca um contra-ataque de malcriação ácida. Quando isso acontece, Alice cresce até três metros e deleita-se com a oportunidade de os acassapar usando elaborados ralhetes e sofisticadas censuras, cujo sentido está certa de não alcançarem cabalmente.

 

Chega a casa derreada como um caixeiro-viajante, faz qualquer coisa para comer e percorre os canais de televisão até ao comprimido para dormir. Vez por outra, há diferenças. Visitas dos netos louros do Manuel Maria mal acompanhado pela esperpêntica mulher transbordante de vogais e abreviaturas. De Gonçalo a solo ou com amaneiradas companhias. Desde que aprendeu a lidar com a internet, encontra-se com a filha e a neta no messenger, mas a canhestra forma de escrever português desta última constrange-a, e acaba por bater em retirada. 

(cont.)

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publicado por Champagne e Miniaturas às 21:54

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Segunda-feira, 15.08.11

Homens, uns poucos, primeiro a medo, depois com militância libertina. Todos foram transeuntes menos um, que teve tempo de desbaratar o seu quinhão do património dos pais, desde logo a dividir pela prole de cinco produzida pela dupla, parcialmente delapidado por nacionalizações e tomadas de posse por cooperativas.

 

Tão estereotipado casal dentro do género improvável, só poderia dar o céu ou o inferno. Artista multifacetado e medíocre em todas as facetas, extremista de esquerda, quinze anos exactos mais jovem, recolhido como bicho sem dono, recebido como semi-deus, nunca o menor indício de ignomínia se manifestou nas desmazeladas camisas de xadrez fora das calças, nos cabelos revoltos e mal cortados e, sobretudo, no olhar azul de anjo estupefacto com a visão do mundo. Num ápice, estava de mala e cuia na casa que apenas Gonçalo ainda partilhava com a mãe, mas foi geral a crispação dos filhos. 

 

Ao correr dos dias, cada um seguiu um ponto cardeal. Em Nova Iorque, Paula instalou-se no curso de Bioquímica e no alto e eminente marido cientista Bob, dando à luz a filha Cynthia; Manuel Maria montou uma empresa de marketing, fez dois netos louros em parceria com uma pedantíssima nora fluente em sotaque da Linha; Gonçalo pinta mal, toca pior e faz algum dinheiro com projectos de design, quando se desenrosca dos braços dos amantes. Ao menos agora já pode casar, pode ser que assente, pensa Alice e casquina mordazmente. Com toda a sua liberalidade e cosmopolitismo, não assimila o casamento de homossexuais. Afigura-se-lhe absurdo e sente-se algo traída e indignada, pois foram muitas as décadas de constrangimento que os hetero encararam pela frente até se libertarem dessa canga social e seus efeitos colaterais. Sobretudo as mulheres. Impossível perceber por que carga d'água se reinvidica com tanto afinco o direito a algo que nunca deveria ter existido. Uma invenção dos infernos da Igreja Católica Apostólica Românica. De repente, ri-se a bandeiras despregadas quando se dá conta da divina ironia.

 

Gonçalo capitulou às estocadas homofóbicas, ao mau pressentimento e à progressiva perda de terreno para o namorado da mãe. Como tarântula, Luís foi urdindo a trama, talvez não premeditada, mas inexorável no exercício de poder mesmerizante sobre Alice. Convenceu-a a abrir um bar em sociedade, com exposições e música ao vivo, bem ao jeito da década de 90. No fim das contas, encheu-se de álcool, cocaína e dívidas. Vendeu-lhe coisas de casa sem seu conhecimento, foi-lhe à carteira, à conta bancária pessoal. Quando estouraram os conflitos, afrontou-a com uma miúda de vinte e três anos, a quem fez um filho. Depois, desapareceu no mundo, mas as dívidas ficaram e Alice iniciou uma via sacra de processos de credores e penhoras. 

 

Caír na penúria é pior que anunciar um cancro. A falta de dinheiro é uma espécie de lepra social, as pessoas agem como se fosse contagioso. É tolerável ombrear com pessoas dúbias, medíocres, chatas, com pancadas, salpicadas no curriculum por episódios emocionais e comportamentais translúcidos ou movimentações ascensionais obscuras, mas a falta de dinheiro subverte tudo. Amigos de há trinta anos viraram-lhe a cara, agiram como se a sua aflição fosse impertinência. Os periféricos lavaram as mãos e comentaram entre si e o mais possível, lambendo os beiços com cínica comiseração, lamentando o infortúnio, apimentando enredos, cozinhando intriguilhas, aliviados por não ser nada com eles, e depenicando clichés profusamente impregnados de ciência da vida de pacotilha. Tudo gente capaz de dar a camisa e uma palestra por amor ao próximo, que se desunhava a marcar pontos no ranking dos contributos para causas sociais longínquas, arrematando assim a tranquilidade da consciência.


Retém como uma relíquia a memória do dia em que decidiu engolir orgulho e dignidade, ligando para a Maria Helena, que tantas vezes lhe tinha prodigalizado provas de amizade, tendo-lhe oferecido até, um certo dia, num arroubo de expontânea e incontrolável generosidade, um bonito casaco de estilista de primeira linha que Alice lhe tinha gabado com sinceridade e sem a menor sombra de cobiça. Desta vez, Alice pediu-lhe embaraçada e de modo desajeitado, cem contos. Maria Helena cumpriu escrupulosamente a sua imagem generosa e boa. Proferiu uma série de frases de consolo, repletas de alento. Disse-lhe que precisava consultar o contabilista e o marido, e que até ao final do dia lhe ligaria com novidades. Já de saída do café onde se encontraram, Maria Helena chutou: sabes o que é... acabei de gastar mil contos na Loja das Meias, imagina! Até hoje, Alice pergunta-se se o soco no estômago foi deliberadamente aplicado, ou produto puro destilado de supina inconsciência frívola. Claro que a chamada telefónica nunca sucedeu, e claro que Alice nunca mais fez questão de encontrar Maria Helena. Ofereceu o famoso casaco à porteira.

(cont.) 

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publicado por Champagne e Miniaturas às 18:53

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Domingo, 14.08.11

Como de costume, pasmou com a quantidade medonha de gente avulsa engalfinhada, dardejando olhares, sibilando "censa", fedendo até à náusea, e empreendendo a avaliação detalhada das tipologias sociais e nacionalidades expostas, produziu a primeira reflexão lapidar do dia: "Caramba, tanto brasileiro, tanto africano, tanto cidadão de Leste! Mas ninguém tem mão nisto?! Entra aqui tudo! Sai-se à rua e ouve-se falar mais português com sotaque, que outra coisa. Entra-se no supermercado, no café, em qualquer loja e, em cada três empregados, dois são brasileiros, e já não há pachorra para tanto "oi". Longe vai o tempo em que o sotaque do Brasil remetia para o exotismo que o imaginário português sempre acalentou. Aliás, ouvir sotaque brasileiro queria dizer que estávamos no Brasil, recebíamos amigos brasileiros de visita a Lisboa, ou ouvíamos alguma composição de algum dos seus muitos génios musicais... Hoje em dia, para todos os que ficam em terra deste lado do oceano, o sotaque do Brasil passou à mais corriqueira das banalidades."

A mente convoca muitos rostos amigos de além-mar, incluindo aqueles de que já se encontra desfalcada. Outro efeito secundário de envelhecer é a procissão de perdas para a morte de pessoas a quem se quer bem. É certo que outros bens-querer vão chegando, mas ao correr dos anos, o fluxo torna-se desproporcional e chega a perguntar-se o que fazer com o afecto sobrante. Vão-se somando aos anos, os ausentes, a ponto de por vezes pensar no dia em que já não vai restar mais ninguém e uma pessoa fica como aquele homem sozinho numa aldeia onde já morreram todos, que deu outro dia no telejornal! Agora está na moda falar em aldeia global, mas neste caso, é mais aldeia mortal, coitado!

 

Alice sustenta recordações antagónicas do Brasil, entre clichéticas passagens pelo Rio e todas as cidades-ícone de circuito turístico, visitadas amiúde e desde cedo, ainda criança com pai e mãe, e o horrífico período em que o marido foi opiparamente contratado para a refinaria em Manaus, a mãe dos deuses. No Olimpo caboclo, deslumbrada pelo maior acervo brasileiro de Art Nouveau, apaziguada pela gente tranquila da "cidade do sorriso", aconchegou-se na belíssima casa de Adrianópolis, mas viver paredes-meias com a floresta amazónica é estar na constante eminência da invasão de todo o tipo de bicharada rastejante e voadora. O mais insignificante dos bichos é desmesurado e perigoso na exuberante Amazónia. Aprendeu a apanhar tarântulas no relvado do jardim, emborcando-lhes pacotes de manteiga por cima. Ficavam incrustadas na manteiga, depois, descolavam-se com muita cautela sobre o gargalo largo de um frasco rapidamente arrolhado, e levavam-se ao Instituto Butantã.  Apesar desse arrojo operacional, nunca a sinistra presença das aranhas lhe foi indiferente e andava pela casa sempre alerta. E daquela vez que lanchavam no jardim e viu, com estupor, uma a trepar pelas costas do cadeirão onde estava sentada a mulher do adido cultural da embaixada (como se chamava ela?...). Teve que lhe dar um piparote com o guardanapo e foi a debandada geral da civilidade do chá para a descabelada histeria de um bando de finíssimas senhoras a dançarem uma espécie de twist em cima das cadeiras, guinchando e arrepelando-se como teenagers num espectáculo dos Beatles! Uma noite acordou com os gritos da filha à porta da casa de banho perante uma coral enroscada atrás da sanita, noutra vez, deram com uma à beira da piscina, rapidamente separada em duas quando o jardineiro lhe aplicou um golpe certeiro com a pá. Os filhos e o marido aprenderam a distinguir no esplendor da cor os sinais distintivos das coral venenosas, das falsas coral, estabelecendo com as últimas relações pacíficas, mas para ela, veneno era apenas um aditivo que magnificava o medo. Os seis anos passados na antiga capital da borracha foram uma agonia de susto para Alice, que neste trecho acaba de adquirir nome próprio.

 

Como no enredo dum filme de autor que urde subliminares correspondências simbólicas, enquanto se debatia contra-vontade em tal ecossistema, verdadeira peçonha contaminava o já comprometido casamento, pondo-o num estado comatoso do qual nunca recuperou. Serpentes e aranhas tornaram-se animismos de mentiras subreptícias, sentimentos com colmilhos cheios de veneno e frases sibilinas, que desde os três meses do mais velho e ainda em Portugal, tinham passado a acoitar-se por todos os recantos do casal, imóveis e dormentes, à espera da oportunidade de atacar. O ascendente engenheiro exercia o costume de frequentar mulheres de mau porte. Alice cedo o descobriu, mas tarde demais para arrepiar caminho num labirinto de fórmulas de parecer bem onde só se admitia escândalo e ostracismo a mulher que ousasse não fechar os olhos e enjeitasse o seu papel de parideira e fada do lar. A lei condescendia no divórcio havendo escândalo público, mas a prática era consentida, comum aos insígnes chefes de família-pilar-da-nação-salazarista, portanto, encoberta e tolerada. Reflectiu-o a resposta da mãe, quando a procurou lavada em lágrimas: deixe-se disso ponha-se no seu lugar e faça de conta que não dá por nada não dê parte de fraca acha que só lhe acontece a si o que quer. É homem.

Bem-parecido, bem falante, bem nascido e bem pensante, Marcelo foi a melhor das opções num mundo que só tinha duas: casar ou ficar para tia. As ligações de família, para não variar num país onde o nepotismo é atávico, levaram-no ao posto na Gazcidla -"Uma chama viva, onde quer que viva!"-mas o pavio ardeu depressa e três filhos consecutivos depois, só restavam as brasas que coziam o casamento em banho-maria. Entre "Modas e Bordados", "Crónica Feminina" e receitas de Maria de Lurdes Modesto, foi intercalando leituras à socapa, périplos autorizados por galerias de arte, concertos em matiné, e escrevendo vez por outra o seu poema, guardado a sete chaves como carta de um amante.

Em Manaus, as Marias foram substituídas por Jussaras, e Alice partilhava os dias com cobras e tarântulas. Nesse tempo, porém, já se demorava ao espelho, adivinhando cabelos brancos, profetizando rídulas e avaliando as ínfimas expansões do corpo. De volta a Portugal, em plena primavera marcelista, sentiu-se capaz de enfrentar cobras e lagartos, e pediu o divórcio. Precisamos falar, Marcelo. Tem que ser agora? ...Só tenho dois minutos. Bom, dois minutos só dá para dizer: deixe aí as chaves, se faz favor! Claro que não deixou, claro que esgarçou a boca com um sorriso sardónico, disse está doida?! e saiu porta fora. Quando voltou à noite, deu com o resultado de um dia inteiro de azáfama com a criada Felismina enfiado nas malas de viagem enfileiradas no corredor. Foi aí que deflagrou a guerra, pelos teres e haveres, pela custódia dos filhos, pelo ego, pelo nome, pela face, pelo estilo, pela lei e pela grei! Alice ganhou os filhos a troco de tudo o mais.

Arranjou emprego como secretária, depois de tirar à pressa um curso de estenografia e dactilografia. Num mercado escasso em boas ofertas de trabalho para mulheres, foi ao que chegou com o sétimo ano do liceu, escolaridade bastante para votar na Junta da Freguesia, nada menos, nada mais! Fez traduções de francês e bolos chiffon, rissóis de camarão, e pastéis de massa tenra com sobras de carne assada. Na casa solicitada ao património dos pais e concedida em atenção aos netos, nos dias de jantar sopa e pão com fiambre, só lhe valia a rápida intervenção da cunhada Laura, oásis no deserto para onde a jogou a própria família, já que os demais se renderam à reprovação da progenitura incapaz de digerir o divórcio, eficaz na manipulação via Rio de Janeiro, para onde se auto-exilou imediatamente após o 25 de Abril.

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publicado por Champagne e Miniaturas às 15:13


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