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A CAIXA (cont.)

Terça-feira, 06.09.11

Esta tarde no café, pedi à miúda uma queijada de amêndoa e um sumol de laranja. À segunda confirmação, esta estendeu a pinça dos bolos para o tabuleiro das queijadas. Virou a queijada que seleccionou para verificar no verso do embrulho se era de amêndoa, e serviu-ma num pires, juntamente com o refrigerante. Quando a trinquei, era de ananás. Menina, desculpe, mas pedi de amêndoa. Esta é de ananás. Ah! Mas estava no sítio das de amêndoa! ...Mas é de ananás, repliquei. Não gosta? Nem por isso, tá a ver, sumol de laranja, nem sequer é de ananás, prefiro amêndoa. Foi revirar todas as queijadas, enquanto se explicava: sabe, elas têm escrito aqui atrás do que são, e essa está mesmo no sítio das de amêndoa. Rematou com a pinça entreaberta e suspensa dos dedos em ângulo obtuso: afinal, já não temos de amêndoa. Puseram as de ananás no sítio das de amêndoa, porque já se acabaram as de amêndoa.

 

Manuel ficou suspenso na pontuação impressa no rosto da rapariga: um ponto de interrogação em cada olho, um ponto de exclamação no lugar do nariz, e a boca, toda ela reticente, que ao todo só queria dizer que-quer-que-faça? Apatia, confusão e enfado. Pensou que o pior de tudo é não haver como pensar. Está escrito na parte de trás do embrulho, “Amêndoa” ou “Ananás”. A de amêndoa e A de ananás. A coincidência e o imprevisto é que comprometeram o método! Tivesse ele o software necessário para descodificar como é possível não apanhar uma palavra inteira ao primeiro vislumbre.
Antes da queijada, ao sentar-se, a mesa estava repleta de louça usada pelo cliente anterior. A rapariga apareceu com uma bandeja, manifestamente pequena demais para o volume de louça. Avaliou, deu meia-volta e foi buscar uma bandeja maior. Logo aí, Manuel tinha pensado mas por que carga de água não toma nota do pedido, leva alguma louça, depois traz o que pedir, e leva o resto?!

Vem para a rua a pensar que com metade dos empregados melhor pagos e com maior qualificação, o dono do café concerteza facturava mais. A queijada de ananás que acabou por se sujeitar a comer, soube-lhe a amêndoa amarga.

 

Quando era puto, uma vez aconteceu-lhe uma situação hilariante com a mãe de uma das primeiras namoraditas. Foram todos três lanchar na Mexicana. A mãe, de uma possidonice antológica, tentava parecer o que era óbvio para toda a gente que não era e, quanto mais se esmerava mais se afastava do objectivo, produzindo um ror de situações basculantes entre comicidade e constrangimento. Ao empregado mais carismático da Mexicana naquele tempo, a miudagem do eixo Filipa de Lencastre-Instituto Superior Técnico chamava Chouriço de Sangue, devido ao escanzelado e vermelhusco pescoço que lhe saía impertigadamente do casaco branco da farda. Vem o Chouriço de Sangue de bloco e caneta em punho e irrepreensivelmente pergunta, dirigindo-se em primeiro lugar à decana da mesa: Vossa Excelência deseja? Um “palmiére” e um capilé. Simples, ou coberto? Como é que é isso, coberto? Minha senhora, é com ovo e açúcar batidos.  Ai credo, não gosto de capilé assim! Teve que bater em retirada para a casa de banho, onde se desmanchou a rir,  e permaneceu durante largos minutos a reconstituir compostura. Pescoço caricatural, ou não, ia-se a um café e era-se atendido como deve ser, essa é que é essa.

 

Se o Eça cá viesse, esgotava a palavra choldra em menos de um ai, aliás, o mais certo era faltarem-lhe palavras por excesso de assunto. Mete muito respeito verificar que  Eça, Camilo e Almada comentaram e descreveram tipos sócio-culturais com correspondências assertivas à actualidade. Visto assim retrospectivamente, dá gerações a produzirem gerações de clones sem vontade, sem ânimo e sem fulgor. Mas medo, muito medo, para dar e vender. Logo haveríamos de ter fartura de uma coisa que não serve senão para atrofiar, nem dá para exportar nem nada metido em garrafinhas com rolha de cortiça, pelo menos enquanto a UE não lhe der na vineta chumbar as rolhas de cortiça, como os galheteiros e a tripa dos chouriços. Imagine-se estes senhores da Europa que trabalham nos departamentos onde legislam sobre galheteiros,  a enfardar chouriços e a agoniarem-se todos com a tripa. Um caso sério!

 

Apesar do torpor que começa a tomar conta de si, Manuel procura no google D. Carlos I. Depois, monarquia em Portugal. Depois, República em Portugal. De repente, encontra a caixa, toda ela resplendor, tal qual uma aparição. Fremente, como se fosse Natal e desembrulhasse o presente mais desejado, retira-lhe a tampa com vagares de amante libertino. Começa a extraír do seu interior as imagens extraviadas, relendo os textos escritos com pês e agás em sítios onde há já muito foram extintos. A língua vai-se estreitando, simplifica-se cada vez mais, como se ao pensamento cada vez bastasse menos. Agrada-lhe o requinte da complexidade caligraphica, do mesmo modo que certos luxos o confortam, como comer peixe com a faca e o garfo do peixe, usar guardanapos de tecido, ver uma mesa bem posta com os copos alinhados como deve ser. É numa dessas mesas que afinal está sentado, um tanto aturdido com a profusão de iguarias e vinhos. Sempre que tenta por comida no prato, contudo, ela paira e flutua acabando por se dissolver no ar.  À roda da mesa estão as flausinas da sua infância, todas de fato de banho, em grande algazarra de gritinhos e risos. Fazem tchin-tchin e tilintam os copos, mas falha rotundamente a tentativa de lhes saltar para o colo. Falta-lhe peso, flutua como um balão indirigível, erra a pontaria portanto, e mesmo quando se ajusta, não encaixa. Num canto, um televisor vintage exibe a mira técnica da RTP, afinal, nada menos que um puzzle à picasso das caras do Marcelo Caetano e do Salazar, com uma orelha do Cavaco, salvo erro. Os recortes animados saem por si mesmos do interior da caixa da avó ao centro da mesa como uma terrina de papelão, pairam no ar como se não houvesse gravidade, como se estivessem na superfície da Lua. Ele mesmo começa a sentir-se cada vez mais inefável, a mão que estende move-se em câmara lenta, e, com ela, tenta abocanhar cada recorte como um cão de guarda que agrupa ovelhas para as recolher ao interior da caixa aparecida. Debalde. Os recortes ganham vontade própria, ou impele-os outra vontade. Desmultiplicados aos milhares volteiam no ar como papagaios sem fio e o salão parece-se cada vez mais com uma cena em tons de sépia no refeitório da escola do Harry Potter. Eis senão quando, aparece uma imensa bandeja voadora, que a princípio lembra um ovni. No centro da bandeja está a miúda do café, toda nua, claro e com A tatuado na testa, a matar com o piercing encravado no umbigo. Cheia de medo de cair, enclavinha as mãos nos bordos da bandeja e derrama sobre a mesa uma miríade de queijadas de amêndoa, a que Manuel se lança predatoriamente, devorando sem mastigar todas as que a boca consegue comportar.

 

No melhor da festa soa uma voz em off: Sua Majestade, El-Rei de Portugal!

Entra uma charrete e lá dentro, Dom Carlos I de Portugal, acena-lhe majestaticamente, empunhando um recorte adejante. A turba dos comensais divide-se entre aclamações e apupos, as flausinas dão mais gritinhos ainda, a miúda da bandeja faz loops em jeito de parada aérea. Instala-se a confusão, os cavalos empertigam-se e Dom Carlos toma conta das rédeas por suas próprias mãos, para comoção da assistência. Foi atingido por uma queijada de ananás, vinda não se sabe bem de onde.

FIM
 

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publicado por Champagne e Miniaturas às 22:36

A CAIXA (cont.)

Sábado, 03.09.11

À noite é mais fácil viver. Do despertar tardio até ao jantar amanhado por si ou no sofrível restaurante à porta de casa, onde fazem fiado, o ânimo aumenta por razões inexplicáveis mantendo-se estacionário, quer dizer, bom, até altas horas da madrugada, altura em que se rende à evidência do sono, menos por o sentir, do que pela compulsão de cumprir uma sequência de acções normais no dia de uma pessoa comum. Apesar de quase sempre dormir uma involuntária soneca no sofá da sala, adia o mais possível o momento de ir para a cama, só para prolongar a estada na disposição menos má, que, na verdade, é bem capaz de ser nada menos, nada mais, que o resultado do efeito dos vários comprimidos tomados desde manhã, adubados com uma racionada dose de jameson. Ou quem sabe, uma gratidão instintiva, e com hábitos noctívagos, por ter vivido mais um dia.

Desde a falência da pequena empresa de publicidade que detinha, a sua vida tem dependido de uma sucessão de medidas recursivas e expedientes. Vender o andar maior para comprar um mais pequeno, pedir um pequeno empréstimo ao banco por conta do andar pequeno, pagar umas dívidas às finanças, outras a antigos fornecedores, investir algum num carro de qualidade sofrível. Vender o carro e comprar um chaço em segunda mão, pagar a prestação do pequeno empréstimo ao banco, pagar as contas, e comer.

 

E quem ficou com a minha caixa, afinal? Ou será que pura e simplesmente lhe deram sumiço, jogaram-na no latão do lixo da primeira esquina, sem delongas? Como fui consentir ser despojado desta maneira?


 

Ir para outro lugar é uma opção. Tantos de nós já o fizeram. Vêem-se em palpos de aranha para se desençarilharem das peias que se levantam sempre em torno de um qualquer visionário, regra geral assenta o aforismo “depois do burro morto, cevada ao rabo”, e muitos optam pela abalada. A Maria João Pires, o José Saramago, a Paula Rego, o Júlio Pomar são do melhorzinho que há por exemplo de como neste país os nossos melhores, podendo, põem-se a andar daqui para fora a sete pés. Um país que não protege nem fomenta a cultura, não cultua o seus criadores, é um país menor, não por ser pequeno, mas por recusar crescer.

Manuel divaga pelos incipientes planos de se instalar, ora no Maputo, ora em Los Angeles, e acende o trigésimo cigarro, renovando pela enésima vez a intenção de reduzir no tabaco, isto assim não se aguenta, já custam mais de quatro euros! Claro que em casa fuma à ganância, não se pode fumar em sítio nenhum, quer dizer, ele faz questão de só ir a cafés, restaurantes e bares onde haja espaço para fumadores. O problema é que os lugares para fumadores estão sempre à cunha, para gáudio da tabaqueira. Se for para Los Angeles, o melhor é deixar-me disto de vez, a histeria anti-tabágica é repositório de todos os mal resolvidos chauvinismos norte-americanos. África é outra conversa, têm mais com que se ralar do que com os malefícios do tabaco para os fumadores activos e passivos.

 

Angola é um país florescente, com uma economia em ascensão, quer dizer, há lá gente podre de rica por contraste com os que apodrecem nos confins dos bairros de lata. Deve fazer muita diferença a quem vive à míngua dever a miséria a brancos ou pretos. No fim das contas, é sempre a vã glória de mandar e a cobiça. Lembra-se da vez em que a antepenúltima namorada comentou ter presenciado no cabeleireiro a esposa de um funcionário do governo angolano a gastar mais de mil euros em extensões capilares, para fazer surpresa ao marido no dia dos namorados. Faltou saber se ia em voo normal, ou especialmente fretado para a ocasião. Soubesse o povo angolano a quanto monta a queca de um alto funcionário do estado! Ouviu algures que só em Luanda há quatro mil orfãos a viverem na rua e viu na TV um missionário estrangeiro a levar a peito a sua salvação, juntamente com uma mãe angolana de cinco filhos, que acolhia miúdos da rua. Revê a extrema dignidade com que essa mãe efabulava, num português sem ornamentos, mas escorreito. Até se comoveu a óbvia evolução interior da mulher. Parece que os dirigentes de Angola retiveram o pior da escola colonialista, implementando um grande upgrade na corrupção, e na ganância com que agora abicham empresas portuguesas. Florescente, mas truculenta economia, não foram poucos os que recentemente foram de peito feito e voltaram depenados, quando o corrupto funcionário que os protegeu no empreendimento extrapolou as contrapartidas, ou lhes aplicou o golpe.  Moçambique é menos feroz a nível da corrupção, mas a morosidade dos trâmites acaba por ser dissuassora, quando não impeditiva. Mesmo assim, notam-se movimentações na direcção desses países, encabeçadas pelos que lá nasceram ou cresceram, cuja ligação afectiva e visceral jamais se quebrou.

 

Projectos de diáspora que conciliam antípodas, tal a vontade de se por ao fresco. A fuga para a frente é o último recurso daqueles a quem o mundo foge no seu lugar. Aqui parece que nos caíu um manto pardo em cima da cabeça. Andamos como almas penadas num limbo, parece que morremos e ainda não nos disseram. Ou será o contrário, passam a vida a dizer-nos de variadas maneiras que já morremos, e andamos todos de luto interior por hábito? Rai’s partam, ficámos todos danados quando o Iggy Pop disse que não gostava de Portugal porque as portuguesas andavam todas vestidas de preto… mas foi costume, hoje em dia é que só andamos de preto pelo nosso avesso. Será que o Almada tinha razão quando afirmou que a missão da república portuguesa já estava cumprida antes do 5 de Outubro: mostrar a decadência da raça? Mas, lá está, dar rodas de decadente à raça implica que já fomos o contrário de decadentes, quer dizer, progressivos. Fomos. Portanto, até o nosso Almada nos colocou viradinhos para o passado, como um miúdo de castigo na sala de aula, mas dá que pensar quanto do ultimatum futurista às gerações portuguesas do século XX se poderia reaplicar, com a adição apenas de um I.

(...)


 

 

 

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publicado por Champagne e Miniaturas às 22:42

A CAIXA (cont.)

Sexta-feira, 02.09.11

Mas afinal, que é feito da caixa da avó...? Manuel dá tratos à cabeça, tentando reconstituir o destino da caixa após a morte da avó, vai para vinte anos. Caramba, tarda nada, estou à beira de me transformar na personagem do Süskind que viu a vida de pantanas por causa de uma cagadela de pombo! Que se lixe a caixa! Olha de soslaio o volumezinho de correspondência alinhada sobre a secretária, no meio de um caos de coisas desirmanadas que vão do rato do Mac, até ao caroço da maçã que roeu ao levantar, a título de pequeno-almoço. Dispõe-se a analisar o conteúdo, consabidamente contas. Olha, boa, aviso de corte da electricidade. Quantos dias tenho para desencantar cento de dois euros e noventa e cinco cêntimos?... Pois, a ver vamos... Quando não é a luz, é o gás, quando não é o gás é a internet. Mas sem luz, também não há internet, nem água quente. Porra, dilema do caraças!

 

 

No tempo de el-rei Dom Carlos, Portugal estava na banca-rota. Esta frase sucede-lhe como se lhe tivesse sido vertida clandestinamente através de um orifício qualquer não rastreado. El-Rei, por que carga d'água?! De onde lhe vem agora este léxico? Republicano por inerência, ele há coisas que nem vale a pena perder tempo com elas, isto é uma república há cem anos. A cabeça de Manuel turva-se com a poalha acumulada de meio século de reconhecimentos avulsos de história recente, entre os quais sobressaiem o salazarismo e o 25 de Abril. Sucederam-lhe os dois, o primeiro passou-lhe ao lado, o segundo acertou-lhe em cheio, púbere, retendo a vaga ideia de que antes algo tóxico empestava permanentemente o ar. Lembra a mãe a precipitar-se para a janelas da sala em pleno Verão, sibilando um alarmado "fala mais baixo, olha que se ouve lá fora!", enquanto o pai argumentava em solilóquio para o chefe do estado, a praticar conversas em família a preto e branco no ecrã do televisor. Mais a mais, nunca chegou a distinguir ao certo quais das conversas eram sobre sexo, ou coisas relacionadas com frases escritas nas paredes, à trincha e à pressa. Sempre que a mãe cortava a palavra ao pai “cuidado com o miúdo!” ficava a meio caminho entre achar-se poderoso o bastante para ser temido se ouvisse certas e determinadas conversas, e indignado pelo sonegar sistemático das chaves dos segredos. Com cinco anos, caminhava pela rua pela mão da mãe quando, ávido de exibir a precocidade, juntou sincopadamente, mas alto e bom som, as letras escritas numa parede: "LI-BER-TEM-A-LEX!". A mãe aplicou-lhe o método do rápido apertão no metatarso e, entredentes, atingiu-o com a mais recorrente das palavras da sua infância, "cala-te!". A frase não lhe saiu da cabeça durante semanas e, a bem dizer, ficou para sempre, apesar de após o 25 de Abril ter finalmente resolvido o enigma. Também ficou para depois a revelação da intrigante palidez do pai ao chegar a casa num dia em que fez qualquer coisa desacostumada, acalentado pelos murmúrios tranquilizadores da mãe "mas como queres que saibam?!". O pai tinha votado Humberto Delgado e vinha cheio de medo que descobrissem, coitado. Escapa-se à polícia, mas não se passa incólume ao medo. Resolvido também o mistério do sorriso indisfarçado do senhor da mesa ao lado, a responder tonitruantemente "já, já!", no restaurante onde almoçavam em Sesimbra, quando, estranhando a bandeira a meia-haste no quartel em frente, o pai comentou para a mãe à boca -muito- pequena "não me digas que já morreu?"

 

Salazar era o nome do raspador de borracha que deixava rastos de coisa doce no fundo da tigela de bater os bolos, e fazia-lhe muita espécie a cara de caso com que as mulheres da casa o diziam, e pior, quando ele referia o objecto pelo mesmo nome, a mãe ralhava a rir "chiuuu, isso não se diz!"
O mundo dos adultos era uma floresta de enganos cheia de carreiros que iam a lugar nenhum.

 

Manuel recosta a nuca no sofá e mira o tecto, como se procurasse ver nele um mapa. Vê melhor se fechar os olhos, volta atrás mais facilmente, mas não vislumbra com clareza para além do ponto em que deixou de ser alguém inteiro, para ser facultativamente desempregado, ou freelance. O ponto onde tudo começou não é maior nem mais significante que uma cagadela de pombo, mas desde então, parece que todos os pombos de Lisboa determinaram que haveriam de lhe cagar em cima. E quem ficou com a minha caixa, afinal? Parece que parte substancial da sua história anda ausente em parte incerta, como os recortes dos últimos suspiros da monarquia, que haveria de ter herdado.

 

 

Dá a impressão que muitos de nós temos um piquinho a azedo em relação à monarquia, pelo menos por este penúltimo rei, martirizado mais por inércia e incompetência que pelo mal-enjorcado atentado-suicida. Bem conhecia os riscos e vai por-se a andar de charrete, e o canalha do João Franco que não providenciou escolta policial de jeito! Este inconfesso e inusitado enlevo por Dom Carlos, é coisa para derivar do mesmo sítio de onde nos sobreveio o sebastianismo, esse depósito de esperança nostálgica e rançosa em alguém que venha por cobro a todos os imbróglios. O anseio português mais depressa olha para trás, que enfoca no porvir. Falta de líderes, diz-se. É impressão minha, ou temos tido líderes em barda?! Ou serão antes capatazes, a famosa especialidade da casa? O que nos faz falta é mirar o exemplo, mas os melhores promovem-se mal, têm pouco mediatismo... Escusávamos de estar sempre desertinhos de ter quem nos diga o que é bom para a tosse, de nos pormos a jeito de qualquer ungido com um olho só, unhas e dinheiro para a guitarra, predisposto a cumprir mal e porcamente o papel de sempiterno salvador da pátria, sobre cuja cabeça se erga a aura do Pastor, e, por contraponto, sirva às mil maravilhas para se lhe destilar em cima uma caterva de recriminações, infelizmente, quase sempre mais que justas, o que não quer dizer que a relação não esteja logo inquinada à partida pelo vício de delegar o afadistado destino nas mãos de outrém, recoberto com a arte de limpar a água do capote. Posto isto, é a contínua logomaquia entre "eles" e "nós". Há qualquer coisa de perverso nesta eterna cisma com “eles”. “Eles”, são os que mandam. A culpa é sempre toda “deles”. Como se eles fossem selenitas, ou invulneráveis por artes de berliques e berloques.  Afinal de contas, não é preciso ser grande, para pensar grande coisa.

(...)

 

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publicado por Champagne e Miniaturas às 23:26

A CAIXA (cont.)

Quinta-feira, 01.09.11

Com o fado ainda a ressoar-lhe na cabeça, revisita a apresentação de um CD de nóvel fadista a que foi convidado a assistir, ao fim da tarde, no Martinho da Arcada. O apresentador, o marido da fadista, fez a festa, atirou os foguetes, fez moinhos com as canas, e terá porventura planeado vendê-los... Enfim, irritante tipo o dos maridos que tomam conta das carreiras artísticas das esposas. Todos se parecem, não pelos traços fisionómicos, bem entendido, mas pelo exercício de uma fórmula funcional que lhes assenta como uma gosma, conferindo-lhes uma dinâmica postural comum. Deixam-nos a braços com a intrigada reflexão sobre o que terão visto neles as artistas, para assim colocarem nas mãos e no resto deles, tudo o que lhes respeita a elas. Anunciam a produção delas como "nossa", têm sempre um olho no burro, outro no cigano, como quem não quer a coisa, ou seja, ao mesmo tempo que trauteiam a canção que elas cantam, batem palmas a compasso e ritmos com o pé no chão, relanceiam para a expressão dos circunstantes, perscrutando entre a assistência a cara daqueles a quem interessa cair nas boas graças, exalando sorridente formato de intimidação sobre a geral, que se vê em palpos de aranha para atinar com a reacção almejada. Imbuídos de fanatismo derriçado, comprometem a credibilidade das mulheres com os ademanes, o ar de donas de casa de antanho recebendo os convidados em representação da cara-metade, em resumo, uma peganhenta mistura de atamancados business men com pavoneados anfitriões da festa.

Festa, produto de mais uma fórmula nacionalizada: de maneiras que fizemos assim-assim, desculpem qualquer coisinha, muito obrigadinhos por terem vindo, não levem a mal, alem de grávida, a cantora está afónica... risinhos... espero que gostem. Isto tudo dito numa mescla de tonalidades canhestras de quem se revê impante dono da última coca-cola no deserto, mas não quer dizer. Os esposos partilham com os presentes algum episódio da vida doméstica, rematado por um amigo convocado para a contracena. Conversa de quintal, que é preciso aconchegar com sorrisos, de tal modo constrange o eventual desamparo de quem com tamanha candura se permite fazer tais figuras. Algo engenhado em formato de tertúlia, que se deixou comprometer pelos entrefolhos da combinação a assomar por debaixo da saia. Tudo colado com cuspo, como o painel de fotos com que decidiram cobrir um dos espelhos, que a meio da cantoria achou por bem precipitar-se por ele abaixo, pondo em alvoroço a mesa dos vips cita na sua dianteira, impelindo os mais remexidos a lançarem-se ao painel de mãos espalmadas, compensando à força de pressão, a falta de aderência. E nem eram maus, os fados, a fadista idem, os músicos tocavam bem e os poemas eram de Pessoa... A rir-se no além como ele riu para dentro, e, se calhar, a pensar no mesmo: Portugal pode ser isto, um belo naco de fado, servido à trouxe-mouxe. Mas come-se!

 

Foi até à cozinha, em estado de sítio desde que a mulher-a-dias deixou de estar pelos ajustes de receber tarde e más horas. Conseguiu desencantar uma faca razoavelmente limpa, que aprimorou com uma rápida esfregadela na esponja igualzinha às scotch-brite, vendida em lote de três por tuta-e-meia na loja dos chineses da esquina. Se bem que as lojas dos chineses já venderam mais barato, às vezes não compensa, chega-se a casa e descobre-se que as pilhas estão descarregadas ou o artigo tem defeito, vai lá tentar-se trocar e é o cabo dos trabalhos, com os chineses a titubearem um português infestado de LL, e a gente a ver-se gregos para se explicar. Pelo andar da carruagem, iríamos bem se aprendessemos chinês, ou melhor dizendo, mandarim, mas faz impressão porque rima com pudim: quatro saquetas dentro de uma caixinha minúscula azul-escura com letras amarelo-canário, exibindo a estampa de um velho de chapéu cónico, repas de bigodes e barbicha branca, a segurar como se de um luxo asiático se tratasse, um pudim flan dentro de um prato. Quando era miúdo pelava-se por ele, acomodado em forminhas, ou em fatias esculpidas, assente sobre uma camada de açúcar caramelizado.

 

Abriu o frigorífico, torcendo o nariz ao cheiro indiciador de que algo se encontra em processo de mutação biológica no seu interior, retirou manteiga fácil de barrar e com menos trinta por cento de gordura, em prol do colesterol, a caixa do fiambre ainda consumível, só um bocadinho a esverdear na terminação, o que se resolve já com a faquinha da manteiga, e fica como novo. Retira do pacote de plástico duas fatias de pão bimbo e produz uma sandes, que acompanha com uma superbock de lata. A caminho do sofá, atende a namorada arreliada com coisas da vida, basicamente, desmandos do ex-marido com respeito aos filhos, coloca os phones, e passa uma bela meia-hora a enchê-la de fofinha, palavras doces e consolo com a boca cheia, enquanto tecla com dois dedos da mão direita, manifestando o gosto nos posts dos amigos faceboquianos, regozijando-se por ambos terem aderido à tarifa stravaganza, mesmo antes de desligar com muitos beijinhos.


Regressa à viagem de ida-e-volta entre os duzentos-e-troca-o-passo canais da box, e a internet. Passa pelos mails e descobre que alguém pode estar à beira de lhe encomendar um trabalho. Alvoroçado, responde imediatamente, apesar do adiantado da hora e de haver fracas hipóteses de o potencial cliente ainda se encontrar a pé. De qualquer maneira, não tenciona levantar-se antes das onze, portanto, caso o cliente seja madrugador, já fica aviado. Vai do outlook para o blog, mas quando lá chega, faz uma pausa para retomar o comando da box à procura de um canal de música que não interfira com a navegação, e é assaltado pela lembrança da caixa. Pena não dar jeito falar da caixa no blog todo dedicado a gadgets, que são a menina dos seus olhos. Só se abrir um blog para falar de coisas como a caixa, mas tem medo de não ter mais assunto relacionável, e que o blog seja um flop.

(...)


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publicado por Champagne e Miniaturas às 22:07





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